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Além da Mediocridade

Artigo originalmente publicado no Valor Econômico* “E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: ‘Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes…’” Friedrich Nietzsche Enfim, é isso! Vivemos o eterno retorno […]

há 2 anos por MARCO AURELIO RUEDIGER

Artigo originalmente publicado no Valor Econômico*

“E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: ‘Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes…’”
Friedrich Nietzsche

01_marco_0Enfim, é isso! Vivemos o eterno retorno de Nietzsche, na sua pior versão. Toda semana a medíocre pauta nacional se repete. Haverá impeachment? Será votada alguma pauta-bomba? Mandatos foram expedidos? Contas secretas descobertas? Alguma nova revelação espetaculosa? Dólar subiu? Ministro caiu? Nossa narrativa política se tornou uma coluna de variedades, absolutamente medíocre e autorreferente, daquelas tão em voga, com pequenas notícias e comentários curtos, para quem não gosta de ler muito. Pérolas de informação inútil na medida do viés do articulista. Ou seja, mais do nosso tempo desperdiçado pela esperteza otária da pequena política, da incapacidade administrativa ou mesmo da desonestidade ideologizada daqueles que adoram repetir que “temos de fazer o dever de casa”. É isso que nos tornamos, espectadores de um debate oligofrênico sem o menor compromisso com uma visão de futuro para a Nação. Não há pauta estratégica mínima consensuada que se preserve, a despeito do embate político. Tudo é pasto, como se os atos não tivessem consequências estruturais sérias, e pudéssemos continuar indefinidamente com a arcaica estrutura política e produtiva, em um mundo que não dorme e busca inovações incrementais ou disruptivas em todos os campos, inclusive no político.

Um exemplo: em visita muito recente a Xangai, percebemos uma cidade fantástica, dinâmica, organizada e vigorosa. Ali, tem-se o reflexo de uma vontade nacional: ser protagonista no século XXI. Nos jornais, claro, página inteira para o encontro entre o presidente da China e o atual líder de Taiwan. Momento histórico. Fala-se do reencontro da China, da superação de idiossincrasias. Claro, há benefícios para ambos os lados e um enorme potencial a ser explorado, com enormes repercussões econômicas e geopolíticas. Impacto no noticiário internacional. Ainda que o leitmotiv seja econômico, percebe-se uma bela engenharia política, com várias camadas (calculadas) de impacto. Em Londres, igualmente, assiste-se a outro exemplo do mundo se movendo, novamente com excitação e deferência: o primeiro-ministro indiano esteva na cidade há duas semanas. Reuniões do mais alto nível com a cúpula do governo britânico seguidas de noites de popstar, em estádio, com a imensa comunidade indiana local, artistas, músicos, intelectuais e com o primeiro-ministro carismático. O governo britânico esmerado na oportunidade da visita. Um esforço enorme do Reino Unido para negociar com as estrelas dos BRICS. E nós? No nosso noticiário, em geral, um terço de página na seção internacional – se tanto. Ficamos olhando para nosso umbigo, às voltas com os planos salvacionistas igualmente medíocres, para todos os gostos, e com contas secretas que, claro, não são de ninguém, entre outras traquinagens.

Estamos perdendo espaço onde importa. No número de patentes, na inovação técnica e científica, no empreendedorismo, na eficácia das instituições, na transparência, na preservação de pautas estratégicas nacionais e internacionais para além do varejo da política e na imigração qualificada, entre outros. Não se joga impunemente com uma nação na extensão suicida que nos concedemos. O preço disso virá, não só agora como assistimos, mas para outras gerações. Precisamos reverter isso e fortalecer nossas instituições, operar estrategicamente e pactuar um modelo mais eficaz de nexos políticos e econômicos. Não é possível continuar a desconsiderar questões como a importância política e econômica do equilíbrio orçamentário e das escolhas de cortes ou prioridades ali contidas, ou ainda escarnecer da vontade de uma reforma política, votando pautas que vão ao contrário do desejo comum do país, tal como o retrocesso normativo estabelecendo doações ocultas para campanhas eleitorais, que obrigou o Supremo ao veto. Sequer podemos cogitar políticas econômicas de ajuste fiscal que corroem o potencial arrecadatório, ou mesmo o crescente volume da dívida pública espremendo o investimento público onde é mais do que necessário. E onde seria? Em Ciência e Tecnologia, Educação, Comércio e Infraestrutura, além de no apoio ao empreendedorismo e à modernização do Estado: necessário, justo, eficaz, inclusivo e digital.

Convido o leitor a olhar o trabalho da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da FGV com o Valor – o Mosaico e o Simulador Orçamentários – ou ainda a inédita interface de transparência do Congresso em nosso site, visando as doações de campanha e seu reflexo nas composições de bancadas e comissões. Trata-se de uma oportunidade de reflexão sobre o imperativo de aprimoramento institucional das estruturas políticas do país, seja pelo processo orçamentário ou ainda pela discussão da transparência e da regulação do lobby. Um trabalho denso, mas de interface amigável, oferecido ao país numa contribuição cívica. Há uma inescapável conclusão: a minirreforma política em curso é um blefe, e o controle da pauta é feito por atores eleitos por regras que não têm interesse em reformar, pois elas os mantêm no controle. Isso nos leva à conclusão de que se faz necessária uma reforma por constituinte exclusiva, que introduza uma forte preservação de agendas estratégicas de interesse nacional, associada a mecanismos efetivos de checks and balances fundamentados em forte transparência e em racionalidade orçamentária. Que cada um verifique se a modelagem político-institucional existente não requer aprimoramentos para compatibilizar a eficácia das instituições aos desafios do mundo contemporâneo. O Brasil pode ser grande, mas primeiro precisa querer se fazer grande, e isso se faz com sacrifícios e decisões, como mostram as nações que são de fato players globais. De outra forma, ficaremos, como dizia o filósofo, lançados ao chão e rangendo nossos dentes, submissos a um eterno retorno; no caso, a uma agenda medíocre.

*Marco Aurélio Ruediger é Doutor em Sociologia e Diretor de Análise de Politicas Publicas da DAPP-FGV. As opiniões externadas nesse artigo são de responsabilidade exclusiva do autor. Email: marco.ruediger@fgv.br


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