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Análise de redes sobre imigrantes venezuelanos aponta para o desafio migratório em Roraima

Debate com 58,9 mil menções aponta predomínio de posicionamentos contrários ao acolhimento de imigrantes no estado, cuja capital Boa Vista enfrenta problemas logísticos e financeiros

há 7 meses por Lucas Calil, Tatiana Terra Ruediger, Polyana Barboza

A contínua e crescente chegada de imigrantes venezuelanos à Região Norte do Brasil, principalmente a Roraima, fez com que a agenda migratória, normalmente de pouco impacto no debate público brasileiro, ganhasse notável abrangência desde o fim de janeiro. Muito da ampliação desse debate, inclusive, foi reorganizado pelo contorno político do desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro e pela acentuada polarização opinativa e eleitoral no país.

Verificou-se, no monitoramento de redes sociais da FGV/DAPP, predomínio geral de posicionamentos contrários ao acolhimento de imigrantes no estado, cuja capital Boa Vista enfrenta problemas logísticos e financeiros para recebê-los em dignas condições. Esta pesquisa identificou, entre 22 de janeiro e 19 de fevereiro, 58,9 mil postagens sobre a migração venezuelana ao Brasil, sendo 2 mil originadas de blogs com material noticioso/informativo (3,4%), 5,8 mil de sites de notícias (10%) e 51 mil publicações do Twitter (86,6%). Tal predomínio oposto à ampla recepção de venezuelanos, contudo, é bastante fragmentado, em função dos diferentes atores de influência que atuaram no debate, e tem argumentação crítica mais forte em relação ao governo da Venezuela e à situação emergencial da população do que em relação à questão migratória em si.

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Viagem de Temer e desfile carioca conduzem a discussão

O gráfico abaixo ilustra a oscilação diária no volume de menções ao tema em Twitter, sites e blogs desde o fim de janeiro. O começo do aumento de debate na web coincide com dois eventos simultâneos: o desfile do Grupo Especial das escolas de samba do Rio, em particular a campeã Beija-Flor e a vice-campeã Paraíso do Tuiuti; e a viagem do presidente Michel Temer, durante o feriado de Carnaval, a Roraima. Até 09 de fevereiro, praticamente toda a discussão sobre Venezuela, no Brasil, repercutia tuítes com notícias sobre a chegada de refugiados ao estado ou contestações políticas ao presidente Nicolás Maduro, que é associado fortemente aos ex-presidentes Lula e Dilma Rousseff. Por isso, mais do que engendrar um debate específico sobre a situação dos venezuelanos em Roraima, o engajamento de atores nas redes sociais anterior ao Carnaval mantinha destaque ao matiz político do regime venezuelano, ainda como resultado do julgamento de Lula no fim de janeiro.

 

A partir dos desfiles e da visita de Temer a Roraima, o debate passa a incorporar, de forma centralizada, a conjuntura de chegada e recepção dos imigrantes na fronteira do país. Também com forte impacto de notícias que destacam a fome dos venezuelanos, a falta de alojamento e de serviços públicos no estado, a condução do tema se inverte: em vez do governo de Maduro orientar o apontamento de críticas políticas à imigração, o desafio migratório se sobrepõe como o eixo a partir do qual os diferentes grupos de oposição ao PT e à esquerda ensejam questionamentos partidários e ideológicos.

O pico de menções ao assunto foi em 13 de fevereiro, terça-feira de Carnaval, logo após o desfile das escolas do Rio. As alegorias da Paraíso do Tuiuti suscitaram grande impacto nas redes sociais, sobretudo entre grupos de apoio a Lula e aos governos petistas, em contraposição à agenda de Temer, e o desfile da Beija-Flor acentuou a interseção entre o Carnaval e a política social. Simultaneamente, diferentes veículos da imprensa deram ênfase aos múltiplos problemas em Roraima: o jornal “O Estado de São Paulo”, por exemplo, anunciou o aumento do efetivo militar no patrulhamento da fronteira e a declaração, por parte do porta-voz da Organização Internacional para as Migrações (OIM), de que a situação na Venezuela é de proporção equivalente à do Mediterrâneo, que já dura alguns anos.

Outros veículos relevantes da imprensa repercutiram os mesmos tópicos, assim como episódios de xenofobia e violência contra os imigrantes em Roraima. O apresentador Milton Neves fez seguidos tuítes críticos ao acolhimento de venezuelanos, apontando como decorrentes da falência do governo Maduro. Políticos alinhados à direita também questionaram a recepção dos refugiados, com críticas às ações de Temer para gerenciar a questão e ao apoio de Lula e Dilma ao presidente da Venezuela.

Com isso, a organização dos grupos engajados no debate se fracionou entre atores próximos ao PT e a outros partidos de esquerda, que repercutiram os desfiles e os associaram à rejeição aos imigrantes, e os perfis da política, da imprensa e do entretenimento que reiteram a situação dos venezuelanos como resultado do fracasso de Maduro. Estes se dividem entre os opositores explícitos de Temer (alinhados a personagens como Jair Bolsonaro) e defensores da restrição à entrada de refugiados, mas sob o argumento da incapacidade de Roraima em receber tamanho volume de estrangeiros.

O debate sobre a imigração venezuelana no país foi tomado por grupos de alinhamento político mais à direita. Por conta disso, não existiu uma delimitação clara de subgrupos participando da discussão. Os perfis que mais influenciaram o debate foram @JanainaDoBrasil, @jrguzzofatos, @leandroruschel e @o_antagonista, nesta ordem. Logo, os pequenos grupos encontrados foram puxados majoritariamente por tais influenciadores, como podemos ver na imagem do grafo pela divisão de cores e como as mesmas são puxadas pelos maiores nós.

Ao analisarmos os dados de forma mais minuciosa, podemos notar que os grupos compartilham de forma geral os mesmos tuítes, o que possibilita a identificação de uma coesão argumentativa no que tange o discurso sendo produzido por esse espectro político. Os perfis engajados na discussão migratória dos venezuelanos no Brasil parecem mais preocupados em usar a imigração como forma de criticar a ideologia da esquerda do que em discutir a questão migratória em si. Apesar disso, alguns tuítes menos populares no grupo falam da entrada dos venezuelanos de forma mais direta. Enquanto alguns se colocam contra a entrada irrestrita de venezuelanos no país, outros tuítes dizem que devemos acolher os refugiados, que já sofrem tanto com o governo totalitário venezuelano.

 

O tuíte que mais se popularizou no grupo foi uma postagem de @jrguzzofatos, o segundo maior influenciador do debate no período analisado, na qual critica a caracterização dos venezuelanos entrando em território brasileiro como imigrantes. Para o autor @o_colecionador, o termo imigrante também estaria equivocado: o certo seria chamá-los de refugiados. Outros tuítes que também falam da questão da nomenclatura dos imigrantes criticam duramente a imprensa brasileira, que, aos olhos dos autores, hesitaria em usar o termo “refugiado” por não querer chamar o governo de Maduro de uma ditadura.

O grupo de forma geral critica a visão de que a esquerda defende os pobres. Algumas postagens são contra o atendimento de militares venezuelanos pelo sistema hospitalar brasileiro, uma vez que são eles os responsáveis por “massacrar” a população venezuelana. O terceiro tuíte com maior número de compartilhamentos ironiza o fato da esquerda estar no Carnaval enquanto no Maranhão uma igreja alimenta venezuelanos fugindo da “miséria” do “governo socialista”. Outras postagens cobram de Temer que não apenas acolha os venezuelanos pedindo abrigo, mas também faça algo para tirar Maduro do poder. O fluxo de venezuelanos fez com que setores da direita cobrassem um posicionamento mais duro do governo brasileiro perante a Maduro.

Vários tuítes criticam partidos de esquerda do Brasil — em especial o PT, mas também o PSOL e o PCdoB, classificados por alguns como “esquerdopatas” — por apoiarem o governo venezuelano e serem, aos olhos dos autores das postagens, também responsáveis por sua manutenção e pela atual situação. Outros perfis usam-na para criticar especialmente o PT, dizendo que, se o partido ainda estivesse no poder, a situação no Brasil poderia estar parecida com a venezuelana. Algumas postagens difundidas no grupo enfatizam o fato de que os imigrantes venezuelanos estão fugindo da situação calamitosa de seu país de origem, e novamente se argumenta que isso ocorre por culpa do regime totalitário socialista da Venezuela, comandado por Maduro e iniciado por Chávez.

O quarto tuíte de maior repercussão dentro do grupo foi feito por Janaína Paschoal, a maior influenciadora do debate online no período analisado, no qual explica que os venezuelanos vieram ao Brasil por estarem sofrendo em seu país, e pede para que os brasileiros os acolham e não aumentem a dor dos mesmos. A jurista é responsável por alguns dos tuítes mais difundidos no grupo, e, apesar de criticar os últimos ataques sofridos por venezuelanos em Roraima, afirma que o governo federal é parcialmente responsável pela situação ao falhar em prestar auxílio a Roraima, “acirrando” a situação. Além disso, Janaína Paschoal também defende que Temer deveria agir de forma mais incisiva perante a Maduro, pois para solucionar de fato a “crise” tanto de Roraima quanto da Venezuela, Maduro deveria ser preso.

O quarto tuíte de maior repercussão dentro do grupo foi feito por Janaína Paschoal, a maior influenciadora do debate online no período analisado, no qual explica que os venezuelanos vieram ao Brasil por estarem sofrendo em seu país, e  pede para que os brasileiros os acolham e não aumentem a dor dos mesmos. A jurista é responsável por alguns dos tuítes mais difundidos no grupo, e, apesar de criticar os últimos ataques sofridos por venezuelanos em Roraima, afirma que o governo federal é parcialmente responsável pela situação ao falhar em prestar auxílio a Roraima, “acirrando” a situação. Além disso, Janaína Paschoal também defende que Temer deveria agir de forma mais incisiva perante a Maduro, pois para solucionar de fato a “crise” tanto de Roraima quanto da Venezuela, Maduro deveria ser preso.

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Lei de imigração e debate geolocalizado

Conforme esperado, o estado do país que mais concentra postagens, proporcionalmente, é Roraima. No entanto, a baixa população da região faz com que, em termos absolutos, São Paulo seja o estado que mais participe do debate, com 28% das publicações, seguido pelo Rio de Janeiro (17%). Também é notável que o Amazonas, que faz fronteira com Roraima e com a Venezuela, apresenta alta proporção de menções ao tema, assim como o Amapá, que é fronteiriço à Guiana. Os demais estados das regiões Norte e Centro-Oeste pouco participam do tema nas redes sociais.

Debate geolocalizado no Twitter sobre imigração venezuelana (22 jan. a 19 fev.)

Fonte: Elaborado pela FGV DAPP.

Já a Lei de Migração, que entrou em vigor em 21 de novembro de 2017, foi objeto de 1,4 mil publicações, quase todas ligadas a atores e grupos críticos à recepção de imigrantes. O ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes Ferreira, é reiteradamente criticado por “abrir as portas” aos venezuelanos e por, de acordo com as postagens, referendar uma política socialista de acolhimento aos estrangeiros. O principal argumento dos atores contrários ao posicionamento do ministro é de mote nacionalista: afirmam que a política externa do país, ao receber refugiados, está “privilegiando imigrantes” em detrimento dos cidadãos brasileiros, que já convivem com diversos problemas de acesso a serviços públicos e irão sofrer com a concorrência dos venezuelanos ao emprego e aos benefícios sociais.

O ex-presidente Lula é, junto de Temer (10,3 mil postagens), o ator de maior destaque no debate sobre os venezuelanos: foi citado em 5,7 mil publicações e, em grande parte, identificado de forma negativa com a instabilidade institucional na Venezuela de Maduro. A Colômbia, que também está recebendo refugiados, foi mencionada em 3,5 mil tuítes. Destacam-se, por parte dos colombianos, os esforços semelhantes aos do Brasil para conter o problema migratório nas fronteiras.

Outro subtópico de destaque é a miséria vivida pelos venezuelanos que chegam a Roraima: 17% do debate (10,1 mil publicações), em especial modalizado por reportagem do “Fantástico”, abordam a pobreza e a falta de alimentação disponível para os refugiados tanto na Venezuela quanto em Roraima. Um grupo menor de perfis reage contra manifestações de preconceito e xenofobia contra os venezuelanos: 2,4 mil publicações destacam esse subtema.

 

Considerações Finais

A intrínseca associação entre a conjuntura institucional da Venezuela e a chegada de imigrantes ao Brasil fez com que, no recorte específico do debate sobre os refugiados em Roraima, os grupos de tradicional apoio ao regime venezuelano, alinhados à esquerda, pouco se manifestassem enquanto grupos articulados. Isso rompe com a reiterada polarização — observada em praticamente todos os debates de políticas públicas do país, via Twitter — entre setores influentes da esquerda e da direita, que se relacionam em equilíbrio de forças na web.

No caso da questão migratória, houve maior (e mais segmentada) profusão de vozes de oposição a Maduro, ao PT e ao posicionamento assumido pelos governos de Lula e Dilma, com baixa adesão de atores alinhados com petistas e outras frentes de esquerda. Conforme os resultados da análise, entende-se esse predomínio de grupos contrários à imigração — ou, em menor volume, favoráveis ao acolhimento dos imigrantes, mas contrários a Maduro — como resultado da baixa presença de força discursiva, pela esquerda, de identidade em relação ao governo da Venezuela, dada a grave situação dos imigrantes que cruzam a fronteira. Sem uma posição política de rivalização com as críticas a Maduro feitas pelos demais grupos, os atores pró-Venezuela pouco conseguem se engajar no debate.

Elemento central da pesquisa em políticas públicas realizada rotineiramente pela FGV DAPP, o monitoramento de redes sociais constitui importante objeto de análise sobre o debate de imigração no Brasil e em outros países, conforme o histórico de estudos já publicados, por exemplo, a respeito do impacto da temática migratória em eleições de países da Europa e durante a votação do Brexit, no Reino Unido. Em futura postagem neste blog, a análise sobre a chegada de venezuelanos a Roraima será observada sob outro eixo, com a problematização de diferentes aspectos das políticas públicas de imigração no país — sendo esta uma das vertentes do projeto em andamento “Avaliação dos impactos potenciais dos novos ciclos migratórios para o Brasil”.


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