Ataques no Ceará mobilizam mais de 128,6 mil tuítes em uma semana, mostra análise da FGV DAPP

Hashtag #cearápedesocorro é usada em 89,6% do debate, focado principalmente na disputa de narrativas entre direita e esquerda

há 5 meses por Andressa Contarato, Danielle Sanches, Dalby Dienstbach

Os atentados em série em cidades do Ceará mobilizaram o debate das últimas duas semanas nas redes sociais, somando cerca de 128,6 mil postagens referentes ao tema, entre as 18h do dia 03 e as 18h do dia 17 de janeiro. Um levantamento da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas (FGV DAPP) identificou um pico de menções às 2h do dia 04, com 16,6 mil tuítes (cerca de 277 por minuto), quando se intensificaram os casos de incêndios de ônibus e carros na capital do estado. O gráfico abaixo mostra a evolução desse debate ao longo do período analisado.

Evolução de menções aos ataques no Ceará, nos primeiros dias de 2019, no Twitter (18h de 03.jan às 18h de 17.jan)

Fonte: Twitter. Elaboração: FGV DAPP.

Os registros oficiais têm apontado que até o dia 09 já tinham ocorrido 44 homicídios e 64 apreensões de armas por porte ilegal, um cenário crítico para a segurança pública, porém, já recorrente no estado. Em fevereiro de 2018, a área de Segurança e Cidadania da FGV DAPP chamava atenção para os eventos violentos no Ceará, tais como a chacina no bairro Cajazeiras e a morte de dez presos na cadeia pública de Itapajé. Esses episódios apontavam para a necessidade de melhorias no sistema prisional.

O último Levantamento Nacional do Departamento Penitenciário Nacional (Infopen) já indicava que o Ceará tinha a segunda pior colocação da taxa de ocupação no sistema prisional (razão entre o número total de presos e a quantidade de vagas existentes) entre os estados brasileiros, com 309,2% — acima da média brasileira, de 197,4%.

Também foi visto no estudo que o Ceará apresentou uma proporção de 12,5 presos para cada agente do sistema prisional. Chama-se atenção para o fato de que o Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária (CNPCP) sinaliza a proporção de um agente para cada cinco pessoas encarceradas como padrão razoável para a garantia da segurança física e patrimonial nas unidades prisionais.

Nesse sentido, as constantes crises de segurança reforçam a perspectiva de que o sistema carcerário precisa de investimentos em melhorias e uma maior integração de informações (entre os crimes cometidos e as prisões efetuadas) sobre a questão da criminalidade local.

Hashtags e emojis

No debate no Twitter, teve grande repercussão a hashtag #cearápedesocorro, aparecendo em 115,2 mil postagens (89,6% do debate). Também foram usadas as hashtags #ceará em 11,8 mil postagens (9,2%); #cearárefémdopt — usada em tom crítico à atuação do governador do Ceará, Camilo Santana (PT) —, em 5,2 mil postagens (4,1%); #fortaleza, em quase 3,6 mil postagens (2,8%); e #rosaeazul, em 1,7 mil postagens (1,3%). Neste último caso, a hashtag é usada em comparações entre a repercussão de uma declaração da ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, e o impacto dos ataques no Ceará.

Quanto aos emojis, foram usados mais frequentemente o das mãos unidas em súplica (🙏) — referente aos pedidos de ajuda para o estado —, que aparece em 2,3 mil postagens (cerca de 1,8% do debate); o do raio (⚡) — que acompanha alertas sobre a ocorrência dos ataques e a atuação de supostos criminosos ‒, em 1,9 mil postagens (1,5%); o do rosto pensativo (🤔) — em postagens que questionam a postura de atores públicos em relação aos ataques —, em 1,5 mil postagens (1,2%); e o do indicador à direita (👉) — em comentários sobre a intervenção da Força Nacional no caso —, em cerca de 900 postagens (0,7%).

Teor do debate

Entre os tuítes com maior repercussão, o tema principal tem sido a reeleição de Camilo Santana ao governo do Ceará. O tom do debate, mobilizado por usuários à direita, tem sido de crítica ao governador e ao Partido dos Trabalhadores, ambos responsabilizados nas postagens pela crise da segurança pública no estado. Já as figuras de Sergio Moro e Jair Bolsonaro receberam elogios desse grupo, que compreende a ajuda ao estado ‒ o envio da Forças Nacional aos municípios cearenses sob ataque ‒ como um ato de solicitude do novo governo federal.

A repercussão de imagens e vídeos com violência explícita também foi recorrente. Destacam-se vídeos que supostamente mostram postos de gasolina e ônibus incendiados pelo crime organizado, além de imagens do que seriam os atos de terror promovidos no estado.

Palavras mais recorrentes

Fonte: Twitter. Elaboração: FGV DAPP.

O debate nas redes sobre os eventos no Ceará apontam a importância da consideração dos apontamentos presentes nessas plataformas como fontes de informação para o auxílio dos gestores públicos no direcionamento de ações no combate à criminalidade.