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Casos suspeitos de sarampo reacendem debate sobre vacinação, que chega a 6,44 mil tuítes por dia

Em menções, que cresceram em 200% desde junho, aniversários têm agitado com divulgação de links, vídeos e postagens em contrários à vacinação

há 5 meses

Depois da febre amarela, o sarampo. A emergência de mais uma doença com surtos de transmissão espalhados pelo Brasil voltou a concentrar atenções no Twitter e a engajar um debate amplo sobre desinformação e saúde pública. Desde a segunda semana de junho, as discussões sobre vacinação e doenças associadas à imunização seguem crescentes, e, entre 7 de junho e 11 de julho, foram registrados 121,9 mil tuítes sobre o assunto.

No entanto, esse retorno do tema no âmbito das redes sociais se deu com uma perspectiva diferente da que predominou ao longo dos primeiros meses de 2018, quando a febre amarela e o ataque a macacos centralizaram os engajamentos na web. A partir de junho, quando o olhar da sociedade se estendeu ao sarampo (e a outras doenças), o debate passou a apresentar maior contorno político, incorporando diferentes questões, como imigração, investimento público, movimentos anticiência, combate a notícias falsas e orçamentos federal e estaduais.

Entre 07 e 30 do último mês, a média diária de referências a vacinação e a doenças associadas foi de 2,1 mil tuítes. Já a partir de 1º de julho, essa média subiu 200%: 6,44 mil tuítes/dia, em função do aumento de reportagens e publicações de influenciadores sobre a dispersão de casos suspeitos de sarampo, além do hipotético impacto de grupos antivacina no retorno de enfermidades antes controladas ou erradicadas.

A preocupação com a poliomielite, por exemplo, tem relevante presença, articulada à imigração venezuelana em Roraima e à informação de haveria novos casos suspeitos da doença na Venezuela. Em 06 de julho, houve acentuado pico de 19,2 mil postagens em função de tuíte, muito compartilhado, que alerta sobre o número de cidades brasileiras (mais de 300, de acordo com a postagem) com risco de retorno da paralisia infantil por causa do boicote à vacinação. Grupos contrários à abertura de fronteiras aos refugiados do país argumentam que regimes políticos socialistas, como o de Nicolás Maduro, são os principais responsáveis pela volta de doenças consideradas extintas.

Também se nota uma preocupação, no âmbito da internet, com a divulgação de links, vídeos e postagens contrários à vacinação, com muitos perfis engajados em combater boatos e fluxos de desinformação. Porém, dentre os eixos de maior alcance e importância no debate, não se verifica compartilhamento de links ou postagens contrários à vacinação. A imprensa e atores reconhecidos do espaço público virtual continuam com forte influência na discussão, e as postagens de maior “viralização” de cidadãos comuns enfatizam, com humor, o contrassenso entre os avanços científicos das sociedades modernas e a crença em propaganda anti-imunização. Citam, inclusive, a varíola — erradicada desde a década de 1970 — para satirizar o aumento de pessoas que rejeitam postulados médicos já canônicos.

Entre 7 de junho e 11 de julho, 12% (14,7 mil tuítes) das publicações destacaram o repúdio a “boatos”, 26% citaram a poliomielite e 15% o sarampo. Os links mais compartilhados se alternam entre reportagens de sites da imprensa e de órgãos públicos, com instruções para a vacinação. Já entre os links de origem e conteúdo suspeito, destacam-se mais publicações políticas do que opostas à imunização e, não raro, elas apresentam dados exagerados sobre epidemias e informações de “surtos” não confirmados por entidades de saúde, seja de sarampo, poliomielite ou de outras enfermidades, como difteria e rubéola. Grupos de oposição ao governo federal reiteram ainda a redução nos índices de vacinação da população brasileira e o fato de que muitas localidades estão expostas a alto risco de retorno das doenças por conta do menor investimento público em saúde.

No primeiro semestre de 2018, foram ao todo 951,6 mil tuítes sobre o assunto — volume considerável, enquanto subtópico de saúde pública, e que evidencia a notável importância do tema para grupos de distintos alinhamentos políticos que interagem nas redes sociais. Desse total, 506,7 mil foram apenas entre 15 de janeiro e 1º de fevereiro, quando as mortes de macacos e a divulgação de notícias sobre os casos de febre amarela atingiram ápice de impacto na imprensa e entre os principais grupos que interagem nas redes sociais. Desde então, apesar de nunca desaparecida por completo do Twitter, a discussão só apresentou picos esporádicos, potencializados por postagens de valor informativo, até que, a partir da segunda metade de junho, novamente começou a aumentar o volume de referências ao tema.

Mapa de interações

O mapa de interações conformado a partir de 26.817 retuítes do assunto em junho mostra que o debate se apresentou muito fragmentado em pequenos núcleos, cujas interações se orientaram em função de poucas postagens com alto número de retuítes — e praticamente sem a presença de robôs atuando no debate. Como principal destaque, um núcleo em rosa (17,44% dos perfis), formado por cidadãos comuns, faz postagens críticas a boatos e boicotes de pais à vacinação dos filhos e lamenta o risco de novas epidemias, sem o uso de informações ou reportagens. Bem menor, o núcleo em verde-água (3%) é muito semelhante ao rosa.

Outros dois grupos manifestam acentuada visão política sobre o perigo de novos surtos de doenças antes sob controle no país: em azul-claro (7,08%) e em verde-claro (8,52%), fazem críticas à imigração venezuelana e, principalmente, à situação do governo de Nicolás Maduro, enfatizando que a piora geral nas condições econômicas do país (com menor imunização da população) pode fazer com que epidemias cruzem a fronteira e se espalhem pelo Brasil. A isso atribuem as notícias recentes de casos de sarampo e poliomielite na região amazônica.

Com maior alinhamento à esquerda, os grupos em marrom (6,57%), laranja (5,7%), azul (4,81%) e rosa (3,45%) envolvem militâncias partidárias ao destacar notícias sobre a volta de doenças ao Brasil e questionam, sob o ponto de vista ideológico, a associação entre movimentos antivacina, anticiência, favoráveis à intervenção militar e de base religiosa, com ênfase na defesa de melhores políticas de educação pública e de investimento em tecnologia. E, em oposição aos grupos críticos ao socialismo, argumentam que o governo federal vem reduzindo a atenção com a saúde pública e causando retrocessos em relação ao que outros governos recentes conseguiram melhorar no Brasil. Por isso, salientam notícias sobre a queda na cobertura de vacinação no país e sobre a falta de doses em locais da rede pública de saúde, em especial para a população pobre.

Um último grupo, em verde (5,69%), apresenta menor cobertura política e, mobilizado por publicações sarcásticas e piadas, ironiza o movimento antivacina e setores ruralistas favoráveis à promulgação do Projeto de Lei 6.299/2002, que dispõe sobre o uso de agrotóxicos no plantio. Os perfis desse núcleo destacam a proximidade entre opositores de métodos científicos consolidados, como as vacinas, e favoráveis à aplicação de defensivos agrícolas na produção de alimentos — o projeto foi bastante criticado por muitas organizações médicas, órgãos públicos e institutos de pesquisa.

Em parceria com a Agência Lupa, também foram observadas as dez reportagens sobre o assunto que mais engajaram os usuários no Twitter e no Facebook entre os dias 5 e 11 de julho. Alvo de questionamentos sobre a sua veracidade, uma das notícias reportava a obrigatoriedade de vacinação de crianças sob pena de perda de guarda pelos pais em caso de não cumprimento. Com mais de 6,4 mil engajamentos, a notícia foi atestada como verdadeira pelo processo de verificação da Agência Lupa.


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