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Com 1,53 milhão de menções, debate sobre soltura de Lula tem até 8% de interferência de robôs

Cerca de 60% dos perfis que participaram da discussão manifestaram apoio a Lula; vaivém jurídico gerou 376 mil tuítes sobre falta de legitimidade dos ritos da Justiça

há 4 meses

São Bernardo do Campo (SP) – Discurso de Lula no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC.

Desde a prisão, no começo de abril, o debate sobre Lula apresentava progressiva diminuição de volume conforme passavam as semanas e mudavam os atores de foco nas discussões eleitorais. As sucessivas ordens judiciais em relação ao ex-presidente neste domingo (08) romperam o percurso de queda da presença do petista no centro dos debates políticos do país, reconduzindo tanto Lula quanto o poder Judiciário (e o juiz Sérgio Moro) ao palco principal de atenção das redes sociais.

De 10h deste domingo às 11h desta segunda (09), o impasse sobre a situação de Lula (se ainda preso ou solto) gerou 1,53 milhão de menções no Twitter, equiparando-se ao impacto do debate sobre o ex-presidente quando, em 05 de abril, o Supremo Tribunal Federal rejeitou o seu pedido de habeas corpus — entre 04 e 08 de abril, a média diária de referências a Lula foi de 956 mil tuítes. Novamente condutor da polarização política e dos subtemas engajados pelos grupos que se articulam na rede social, o ex-presidente agregou em seu apoio mais de 60% dos 336.331 perfis que participaram da discussão. Houve forte atuação da militância petista e de atores, celebridades e influenciadores, que lidaram com as rápidas reviravoltas do assunto de forma irônica em relação à Justiça, destacando suposta parcialidade do Judiciário em relação a Lula e a falta de legitimidade das instituições democráticas.

Mapa e interações no Twitter sobre Lula — 10h de 08/07 às 11h de 09/07, 1.163.373 retuítes

É importante destacar que outros dois núcleos (laranja e cinza), em que estão presentes publicações dos demais grupos pró-Lula, também participaram do debate com piadas e sátiras à situação política do país, dos poderes, da democracia e com foco específico em Moro e em integrantesDentre os principais núcleos que interagiram entre domingo e segunda, cinco manifestaram posição favorável a Lula. O grupo em rosa, o maior do grafo sobre o debate, congregou 29,9% dos perfis e reuniu piadas, sátiras a Moro e ao Judiciário e exortações à libertação do ex-presidente, com perfil não necessariamente alinhado ao PT, mas sim à esquerda e com a presença de atores petistas e de outros partidos do mesmo espectro político. O núcleo de miltância do PT, com os dirigentes, parlamentares e nomes de relevância do partido, encontra-se em vermelho e reuniu 11,6% dos perfis. Nesse núcleo, foi expressiva a presença de robôs: 8,19% das interações do grupo são identificadas como suspeitas de automatização em forte atividade de compartilhamento de posições partidárias e de influenciadores.

O perfil do próprio Lula (@lulaoficial), que recentemente mudou de nome (antes, a conta de Lula se chamava @lulapelobrasil), engajou grupo específico, em roxo, com 4,66% dos perfis do grafo. É notável a diferença de posicionamento na rede entre Lula e os demais atores do PT, indicando relativo distanciamento entre os seguidores e os temas que cada lado do engajamento conseguiu atrair e mobilizar no debate.

No grupo petista, o principal foco de discussão foi o juiz Sérgio Moro, o Judiciário e as críticas à “violação da democracia e do estado de direito” e ao descumprimento de uma decisão de instância superior, conforme determinado pelo desembargador Rogério Favreto, autor do pedido de soltura inicial para Lula, ainda na manhã do domingo. O grupo que orbita a partir do perfil de Lula, por outro lado, publica hashtags e mensagens de ênfase à figura do ex-presidente, à sua força eleitoral e à necessidade de que “justiça seja feita” com sua a saída da prisão.

 da operação Lava Jato e do 4º Tribunal Regional Federal. Em ambos os grupos, que comportam juntos 24,9% dos perfis (16,2% no grupo laranja, 6,7% no grupo cinza), há menor postura político-partidária ou analítica sobre o Brasil e maior ênfase ao aspecto inusitado da sucessão rápida de mandatos e réplicas judiciais, assim como à questão do cumprimento dos ritos da Justiça e a críticas às posições monocromáticas assumidas por diferentes magistrados. Afora o grupo vermelho, em nenhum dos demais núcleos de apoio a Lula identificou-se mais de 0,8% de interações suspeitas de atuação de robôs.

Do outro lado, em azul, o grupo unificado de oposição ao ex-presidente e que defende Sérgio Moro reuniu 19,9% dos perfis do grafo. Nesse núcleo, apesar da força de atores ligados a Jair Bolsonaro, interagem diferentes subgrupos e apoios políticos, interligados pela rejeição comum à soltura de Lula e ao PT. Muitas das postagens que ajudaram a mobilizar esses diferentes grupos em conjunto vêm da imprensa tradicional, que acompanhou de perto as idas e vindas do caso — e, a cada atualização, despertava reações de ambos os lados. Nesse grupo, também há críticas ao poder Judiciário e à fragilização das instituições, mas com foco em Favreto, e não em Moro ou na Lava Jato. Houve o reconhecimento de 2,95% das interações do grupo como feitas potencialmente por robôs.

Descrédito da Justiça

Elemento central do debate sobre Lula, a reflexão sobre as instituições democráticas brasileiras e, em especial, sobre o poder Judiciário foi intensamente mobilizada neste período. Foram, no total, 376 mil tuítes entre domingo e segunda destacando, mesmo sem mencionar Lula, a falta de legitimidade dos ritos da Justiça, a fragilização do estado de direito e a partidarização das instâncias de cumprimento da lei. Inclusive, com referências não apenas a Moro, Favreto e aos demais magistrados envolvidos no vaivém de liberdade/prisão de Lula, mas também ao Supremo Tribunal Federal e à Justiça brasileira, de forma geral (vista como lenta, privilegiando ricos e poderosos).

Apesar da polarização entre favoráveis e opositores a Lula, os dois lados do debate manifestam opinião muito semelhante sobre essa questão, com rejeição aos mesmos problemas, mas sob recortes totalmente opostos. Entre quem defende a liberdade de Lula, a conduta de Moro, dos desembargadores do TRF-4 e de boa parte do Judiciário brasileiro evidencia o poder das elites, a proteção a determinados partidos e políticos e a violação das garantias da Constituição e dos direitos democráticos. Entre quem defende que Lula fique encarcerado, o que demonstra o privilégio dos poderosos é também a condução do processo do ex-presidente, que conseguiu muitos votos no STF favoráveis ao habeas corpus e recebeu decisão favorável neste domingo de um desembargador. Também afirmam que a partidarização e “aparelhamento” do PT nas instituições brasileiras são evidenciadas por Favreto e pelos movimentos políticos e de classe, no serviço público, de apoio a Lula, mesmo entre juristas, professores e magistrados.


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