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Com debate polarizado, projeto ‘Escola Sem Partido’ provoca disputa de narrativas na rede sobre modelo ideal de educação

Responsável por 50% das interações, grupo que defende o projeto reúne tuítes que interagem com a família Bolsonaro e com o perfil do 'Movimento Escola Sem Partido'

há 5 meses

A possibilidade de votação do Projeto de Lei 7180/14, conhecido como “Escola Sem Partido”, mobilizou 19 mil menções entre os dias 27 de junho e 11 de julho. Em julho, foram registrados três momentos em que a discussão foi mais intensa: no dia 4, quando estava prevista a votação da matéria na Comissão Especial responsável; no dia 7, por conta da repercussão da entrevista do deputado Jair Bolsonaro à jornalista Mariana Godoy, que abordou o assunto; e no dia 10, em virtude de nova reunião da Comissão.

Evolução de menções sobre a votação do programa “Escola sem Partido” – de 27 de junho a 11 de julho

Fonte: Twitter | Elaboração: FGV DAPP

Idealizada pelo advogado Miguel Nagib há 14 anos, a proposta ganhou mais visibilidade em 2016, fomentando debates em relação à suposta doutrinação de alunos nas escolas. Na Câmara dos Deputados, foram apresentados ao menos sete projetos de lei visando estabelecer diretrizes para um ensino livre de associações partidárias ou ideológicas, além de propostas similares que tramitam a nível estadual e municipal.

Atualmente, o projeto que mobiliza o debate (PL 7180/14) prevê a alteração da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), a fixação de cartazes em salas de aula de instituições públicas e privadas sobre os “deveres do professor” e, ainda, a possibilidade de recusa da oferta de disciplinas que abordem questões de gênero ou orientação sexual. O mapa de interações conformado por mais de 19 mil tuítes coletados sobre o assunto entre os dias 27 de junho e 11 julho mostra que os usuários se dividem em dois polos de discussões: um contrário e outro favorável ao projeto.

Responsável por 50% das interações, o grupo que defende o projeto (em laranja no mapa) abarca tuítes que interagem com a família Bolsonaro e com o perfil do “Movimento Escola Sem Partido” (@escolasempartid). Os usuários do grupo criticam, sobretudo, a influência de Paulo Freire na educação brasileira e a suposta doutrinação de professores de esquerda a seus alunos. Também defendem que a discussão sobre gênero não deve ocorrer nas escolas, mas permanecer apenas na esfera privada.

Jair Bolsonaro desponta no grupo como um dos principais políticos associados ao tema, identificado como defensor do ensino apartidário pelos apoiadores da proposta. O perfil do político, no entanto, não encabeça as menções. Um dos seus filhos, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, que participou da Comissão, é mais presente e mobiliza 533 retuítes.

Mapa de interações sobre o programa “Escola Sem Partido”
19.432 retuítes —27/06 a 11/07

Fonte: Twitter | Elaboração: FGV DAPP

Já os usuários contrários (grupo roxo no mapa) são responsáveis por 31% das menções e definem o “Escola Sem Partido” como um mecanismo de censura à liberdade de cátedra, mobilizando uma contra-narrativa chamada “Escola Sem Mordaça”. Integram o grupo perfis com discursos mais à esquerda do espectro ideológico, incluindo parlamentares, sobretudo dos partidos PC do B, PT e PSOL, e alguns jornalistas e veículos de notícias. Há, ainda, a mobilização de perfis como o “Professores contra o Escola Sem Partido” (@profscontraoesp), um dos mais retuitados do período, que se descreve como um grupo de “educadoras, educadores e estudantes contra a censura na educação”.

Há, ainda, grupos minoritários também contrários à proposta e que agregam 9% das menções. No grupo vermelho (3%), tuítes que interagem com o perfil @QuebrandoOTabu apoiam a discussão sobre a pluralidade de composições familiares nas escolas. Já no grupo verde (6%) as publicações são associadas ao perfil @nadanovonofront e relacionam o “Escola Sem Partido” a outros projetos em debate no Legislativo que, segundo os usuários, implicaram em retrocesso, como o Projeto de Lei 6299/02, sobre mudanças na fiscalização e controle de agrotóxicos no Brasil.

A principal hashtag do debate é #marianagodoyentrevista, presente em cerca de 9% das publicações e impulsionada pela participação de Bolsonaro no programa televisivo da jornalista. Considerando as demais hashtags mais utilizadas, 2 reúnem o debate de usuários contrários à proposta, 1 de usuários favoráveis, e 1 neutra.

Hashtags mais utilizadas

Fonte: Twitter | Elaboração: FGV DAPP


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