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Da Copa à democracia, desalento do brasileiro tem mil faces no Twitter, mostra pesquisa da FGV DAPP

Foram coletados 484 mil retuítes entre os dias 1º e 13 de junho demonstrando desalento com a situação do país

há 3 meses

O desalento do brasileiro já verificado na política — pesquisas eleitorais indicam que votos brancos, nulos e indecisos chegaram a 34% — e na economia — segundo o IBGE, o país já tem 4,6 milhões de desalentados (pessoas que desistiram de procurar emprego) — também é evidente nas redes sociais. Levantamento da FGV DAPP mostra que, entre 1º e 13 de junho, mais de 484 mil retuítes manifestaram desilusão, confiança, resignação e insatisfação com diferentes esferas institucionais e políticas públicas.

A saber: sistema político, classe política, democracia, segurança pública, educação pública, sindicatos, forças armadas, judiciário, economia e serviço público. As postagens, portanto, recuperam o sentimento crítico, de desistência ou de rejeição a esses entes, manifestando o desalento com a situação do país. A título de comparação, no mesmo período, o debate em torno de todos os presidenciáveis somou 1, 5 milhão de retuítes.

— Todos os campos políticos estão muito fragmentados, sem nomes de consenso, o que só amplia a ansiedade sobre o que vai acontecer depois de outubro — explica Marco Aurelio Ruediger, diretor da FGV DAPP.

Cada núcleo (cluster) em uma cor representa o percentual de perfis que interagem a partir de uma rede comum de retuítes, ou seja, com certa unidade discursiva a partir de influenciadores e cidadãos comuns. Quanto maior a participação de um grupo, mais predominante no debate geral é a circulação de postagens entre os perfis que integram esse grupo. Quanto mais afastado um grupo, em termos de pontes entre perfis com outros grupos, mais isolado o debate desse mesmo grupo em relação aos demais.

Mapa de Interações sobre o desalento dos brasileiros 

484.837 retuítes | Data de análise: 1º de junho a 13 de junho

 

Fonte: Twitter | Elaboração: FGV DAPP

7% (verde-claro): debate polarizado sobre as pessoas que defendem assistir à Copa do Mundo e quem diz que a situação do Brasil está ruim por inteiro, em todas as esferas políticas e econômicas, e rejeitar a seleção brasileira é manifestar rejeição ao sistema político e aos políticos.

10,4% (cinza): grupo debate negativamente as perspectivas de conseguir emprego e o abismo entre privilegiados do serviço público e o restante da população, que não tem estabilidade, pensões e penduricalhos. Também há críticas a quem defende a intervenção militar como solução para resolver os problemas da democracia.

11% (amarelo): grupo faz piadas com a diferença entre países de primeiro mundo, que têm serviços de qualidade, e a seleção brasileira, que tem no futebol os títulos que faltam a muitos países desenvolvidos (como a Austria). Usam a ironia para satirizar a torcida pelo Brasil na Copa como se a vitória da seleção fosse uma compensação para os muitos problemas no serviço público e da classe política brasileira.

12,3% (laranja-claro): grupo que relaciona diretamente o desânimo com a Copa do Mundo com a crise institucional do Brasil, dando principal destaque ao desemprego e a greve dos caminhoneiros como motivos para o menor interesse das pessoas pelo futebol. Muitos perfis também satirizam os políticos, sob o argumento sarcástico de que o período de Copa é o único em que não se importam com outras políticas públicas.

12,8% (rosa): grupo com posicionamento político acentuado de forma mais marcada, à esquerda, manifesta desilusão com a continuidade da crise, com a intensificação dos dados negativos na economia, com a falta de confiança no sistema político e especial preocupação com o fato de que há forte apoio popular à intervenção militar. Por isso, nesse grupo o principal eixo de desalento é com a preservação do sistema democrático.

18% (verde): neste grupo, de maior alinhamento político à direita, o principal eixo de desalento é a corrupção. Rejeitam por completo a classe política, fazem críticas ao poder judiciário (em parte, também aos privilégios), dizem que o sistema eleitoral é corrupto e desconfiam da legitimidade da votação de outubro. Fazem críticas ainda à imprensa, acusada de partidarismo à esquerda.

É interessante notar que os temas violência e insegurança são periféricos como eixos do debate em cada grupo, mas aparecem em todos, dando maior coerência à percepção de que são um problema abrangente e sempre citado pelas pessoas. Principalmente como argumento para a necessidade de intervenção militar, no grafo cujo percentual é 18%.


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