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Debate no Twitter sobre intervenção federal no Rio mobiliza 111,6 mil menções, aponta estudo da FGV DAPP

Pesquisa que analisou menções até as 16h mostra destaque para o papel que será assumido pelas Forças Armadas no estado; medida sucede críticas à segurança pública durante o carnaval, quando foram registrados 125 mil menções

há 3 meses

Com a publicação do decreto de intervenção federal no Rio de Janeiro e o anúncio de que o comando da segurança pública do estado será de um general do Exército, o debate sobre o tema mobilizou 111,6 mil menções no Twitter entre as 22h de quinta-feira (15) e as 16h desta sexta-feira (16), segundo análise da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da FGV (DAPP). O debate começou a se intensificar a partir das 7h30 de sexta, quando apresentou média de 8,5 postagens por minuto (ou 512 postagens por hora), e alcançou o seu pico de menções às 13h30, registrando uma média de 61,3 menções por minuto (ou 3,68 mil menções por hora). Nesse horário, o presidente da República, Michel Temer, fazia um pronunciamento em televisão aberta.

 

Das palavras relacionadas ao tema, as dez mais usadas foram “intervenção”, aparecendo em 83,7 mil postagens (ou seja, 75% do debate); “segurança”, em 26,8 mil postagens (ou 24%); “janeiro”, em 16,7 mil postagens (ou 15%); “exército”, em 15,6 mil postagens (ou 14%); “temer”, em 13,4 mil postagens (ou 12%); “pública”, em 12,3 mil postagens (ou 11%); “governo” e “estado”, em 10 mil postagens cada (ou 9%); e “forças” e “armadas”, aparecendo em 8,9 mil postagens (ou 8% do debate).

A decisão ocorre após uma sucessão de eventos criminosos, como arrastões, assaltos e atos de vandalismo, entre outros, evidenciados durante o período do carnaval (ver abaixo).

A intervenção federal está prevista na Constituição Federal, nos seus artigos 34, 35 e 36 e para o caso específico do Rio de Janeiro o seu parágrafo 3º do artigo 34 justifica essa intervenção que será imposta: “por termo o grave comprometimento da ordem pública”. É importante ressaltar que o Estado do Rio de Janeiro diversas vezes contou com auxílio das Forças Armadas na atuação do policiamento do seu território, no entanto o que marca a diferença neste momento é a perda da autonomia administrativa por parte do comando das forças policiais de segurança pública, haja visto o afastamento do secretário de Segurança Pública do Estado nesta sexta-feira (16/02).

Os dez emojis mais usados são o raio (⚡), aparecendo em 0,8% do debate (ou em cerca de 893 postagens); as mãos em oração (🙏), em 0,3% (ou em cerca de 335 postagens); e o rosto em lágrimas (🤣), o dedo apontando para baixo (👇) e as palmas (👏), em 0,2% cada (ou em cerca de 223 postagens cada); e o rosto sem surpresa (😒), o coração vermelho (💗), o rosto pensativo (🤔), o ponto de exclamação (❗) e coração verde (💚), aparecendo em 0,1% do debate (ou em cerca de 111 postagens).

O ator público mais citado foi o presidente da República, Michel Temer, que apareceu em 12% do debate (ou 13,4 mil postagens), principalmente por ser o autor da intervenção. O segundo foi o governador do estado do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão, aparecendo em 5% do debate (ou cerca de 5,6 mil postagens). Em grande parte das menções, o governador é referido como tendo “pedido” a intervenção. Alguns tuítes influenciadores abordam o fato de a decisão ter partido diretamente do governo federal, cabendo ao governador do Rio acatar a resolução.

As hashtags mais usadas no debate se referem a um apelo de #paz, que aparece em cerca de 2,2 mil menções (ou 2% do debate), e ao canal de notícias #g1, em 1,1 mil menções (ou 1% do debate).

De uma forma geral, o debate em torno da intervenção federal no Rio de Janeiro encontra-se polarizado: de um lado há grande apoio e entusiasmo pela atuação das Forças Armadas e de outro existe um temor de que a violência e a criminalidade continue.

 

Como eixo central do debate de segurança pública no Brasil nesta sexta (16/02), a intervenção federal no estado do Rio operou como principal articulador de dois posicionamentos opostos em relação à presença das forças armadas no combate à violência e, simultaneamente, a outras agendas recorrentes de segurança no âmbito brasileiro. Sob a mediação da imprensa tradicional, que divulgou amplamente cada etapa do processo de instauração do Comando Militar do Leste como gestor do tema no Rio, esses dois grupos se opõem quanto ao posicionamento geral em relação às melhores e efetivas práticas de abordagem da segurança no Brasil, muitas vezes recorrendo ao contexto no exterior.

No grupo em azul, protagonizado por atores favoráveis à presença militar no estado como força de segurança pública, há igualmente intensa defesa de ações voltadas à proteção do direito cidadão ao porte de armas. Outro tópico de elevado interesse para os perfis desse grupo é a intensificação de punições para criminosos e a rejeição a argumentos de ênfase aos “direitos humanos”, conforme defendido por atores do grupo vermelho. A partir dessa linha de posicionamento, a entrada definitiva do Exército na luta contra o tráfico e a violência no Rio permitirá melhor penalização e resguardo da sociedade civil.

Em posição contrária, o grupo vermelho se encontra em antagonismo frente a todas as agendas capitaneadas pelo grupo azul, a começar pelas manifestações de preocupação com o uso exacerbado da força militar contra a população pobre. Também se expressa dúvida sobre a eficácia do recurso ao Exército no combate ao crime no estado e sobre a manutenção da democracia no país, uma vez que os militares assumem posições antes ocupadas por civis na condução da segurança pública do Rio.

No duelo entre os dois grupos, obtém importante ênfase a polarização sobre a liberação de armas para os cidadãos. Com origem no debate sobre a nova chacina em uma escola dos Estados Unidos, os dois grupos se organizam entre, de um lado, a defesa de políticas mais restritas de compra e acesso a armamentos, sob a justificativa de que, nos EUA, isso gera constantes episódios de violência nas escolas e universidades; e, de outro, a defesa de maior autonomia para que os cidadãos possam se proteger de criminosos e assassinos, transportando esse argumento para a realidade de impotência da população frente à criminalidade no Rio.

Entre os que se posicionam contra a intervenção, argumenta-se que as causas da violência estão na falta de investimento em políticas sociais, como educação, saúde, saneamento, e que, portanto, não seriam resolvidas com a medida. Outras menções destacam o fracasso das UPPs e do Exército em ocasiões anteriores para reprimir o tráfico.

No campo oposto, usuários destacam que a intervenção é um “ônus” menor do que a violência cotidiana do Rio de Janeiro e que se trata de uma medida necessária. Diversas postagens afirmam ainda, de forma irônica, que apenas perfis alinhados à esquerda ou de classes abastadas são contra a medida e que violência não se resolve com música e “bolhas de sabão”.

Usuários destacam ainda nos comentários o caráter de “cidade partida” do Rio de Janeiro. Há menções sobre o temor de possíveis atos de truculência em favelas, e outras que atribuem o decreto da intervenção ao fato de que “os assaltos chegaram na Zona Sul”.

Apesar da existência de polos opostos de discussão, o tema da intervenção federal fez com que a sociedade civil voltasse a discutir ativamente a questão da segurança pública em âmbito nacional. O debate, portanto, não se localizou apenas entre os internautas do Rio de Janeiro.

Os debates indicaram ainda como a intervenção federal poderá impactar na votação de medidas importantes para o Brasil como a reforma da Previdência. As postagens mencionam que o governo federal fez uma opção estratégica pela segurança pública. Entretanto, o presidente Michel Temer, durante seu pronunciamento oficial da assinatura do decreto, afirmou que no momento oportuno a intervenção será suspensa para que ocorra a votação da reforma.

Para contextualizar a situação na cidade durante o carnaval, a FGV DAPP fez uma análise das postagens, nas redes sociais, sobre segurança durante o período de 09/02 a 15/02 que permite ao leitor compreender o sentimento de medo e insegurança relatado pelos usuários das redes sociais a partir das cenas de violência ocorridas na cidade.

Debate no Carnaval destacou ‘abandono’ do Rio

O debate geral sobre segurança e violência na cidade do Rio de Janeiro, entre a 0h01 do dia 09/02 e as 16h00 do dia 15/02, gerou 125,8 mil menções, somando postagens no Twitter, no Instagram, em sites de notícias e em blogs. Já com relação à violência especificamente nos blocos de rua do carnaval do Rio de Janeiro, foram identificadas 8,1 mil menções, o que representa cerca de 6,43% do debate no período analisado.

Em relação aos temas selecionados, a categoria relativa à violência (furtos, roubos, assaltos etc.) mobilizou 5,1 mil menções (cerca de 62,96% do debate); e segurança (policiamento, operações policiais, sentimento de insegurança etc.), 2,2 mil menções (cerca de 27,16%); já a categoria relativa a assédio mobilizou 800 menções (cerca de 9,88% do debate). É importante observar que os assuntos podem se sobrepor, ou seja, uma única postagem pode mencionar, ao mesmo tempo, assédio e segurança.

Durante o feriado, a cidade do Rio de Janeiro concentrou um grande número de blocos de rua. Do dia 09/02 a 14/02, desfilaram na cidade 344 blocos, atraindo um grande número de turistas, além dos próprios moradores da cidade. De acordo com dados da Riotur, a estimativa era que o município tivesse 6 milhões de foliões nas ruas e recebesse aproximadamente 1,5 milhão de turistas, 700 mil a mais que durante o réveillon de 2018 e 330 mil a mais do que durante as Olimpíadas de 2016. Somada a esta grande mobilização de pessoas circulando para a participação nos blocos, alterando a mobilidade e o ordenamento urbano, havia uma expectativa sobre como ficaria a questão da segurança durante o carnaval perante a situação de criminalidade no estado, com ocorrência de diversos tiroteios recentemente.

A análise buscou dar continuidade ao estudo já realizado no período pré-carnaval, em que foram abordadas a percepção da população, manifestada na web, sobre segurança, violência e assédio contra mulheres. Nesse sentido, o estudo considerou a categoria segurança no carnaval relacionada às menções sobre a presença policial e o sentimento de segurança das pessoas nos blocos. A violência no carnaval referiu-se a relatos sobre roubos, furtos, agressões e casos de vandalismo. Já a categoria do assédio relacionou-se a situações que envolvam algum tipo de constrangimento verbal ou violência física com cunho sexual ocorrida nos blocos, sobretudo com mulheres.

Violência: relatos de arrastões e assaltos

O debate sobre violência nos blocos de rua do carnaval se concentrou entre as 10h do dia 14 e as 16h do dia 15. Nesse intervalo, o volume de postagens referentes a casos de violência foi de 2,2 mil menções, mostrando que 55% de todo o debate sobre esse tema foi mobilizado nos últimos dois dias do período analisado. Esse tema também foi responsável pelo maior pico de menções entre as três categorias abordadas (assédio, violência e segurança), que aconteceu às 13h do dia 15 e alcançou um total de 306 postagens.

Os posts foram impulsionados pelos relatos de diversos crimes ocorridos com turistas e moradores da cidade do Rio de Janeiro durante o carnaval. As postagens mencionaram desde os arrastões ocorridos em diversas partes da cidade, até o caso do supermercado saqueado e do número de tiroteios ocorridos durante o carnaval. Foram referidos ainda o caso das turistas assaltadas próximas a um hotel em Ipanema e dos arrastões ocorridos nas praias também no mesmo bairro.

Também circularam nas redes sociais as notícias sobre o grupo de bate bolas que estava assaltando foliões no Centro do Rio e foi pego pela Polícia Militar com arma e artefato explosivo.

Os números de tiroteios ocorridos ao longo do período no carnaval, divulgados pela plataforma Fogo Cruzado, contribuíram para mobilizar o debate na rede sobre a situação da violência, no dia 15/02/18.

Percepção de segurança

O debate a respeito da segurança nos blocos de rua do carnaval carioca gerou uma maior mobilização entre as 10h do dia 12 e as 2h do dia 14/02. Esse período soma 104 postagens e apresenta dois picos de menções, às 9h do dia 12 e às 12h do dia 13/02, com 65 e 59 menções, respectivamente.

Por toda cidade houve relatos de eventos que geraram um forte sentimento de insegurança e diversas postagens abordando a ausência de órgãos competentes durante o carnaval, para atuarem em medidas de ordenamento urbano e de policiamento na cidade.

Algumas postagens se referiram aos atos de vandalismo, o que contribuiu para aumentar a percepção de insegurança e de abandono da população. Notícias de ônibus, BRTs e metrôs depredados foram divulgadas, juntamente com situações de desordem urbana, como o excesso de sujeira e condutas inapropriadas como urinar em via pública.

Muitos internautas usaram de ironia para retratar sua percepção de segurança nos blocos no carnaval, com postagens que indicavam que haviam sobrevivido ao carnaval sem serem roubados nos blocos ou sendo vítimas de alguma agressão.

Uma postagem que também teve repercussão nas redes sociais foi a que afirma que os vencedores do carnaval foram os arrastões e os tiroteios, indicando como a imagem deste carnaval no Rio esteve associada à violência.

Em relação ao papel das autoridades perante o cenário de crimes e desordem urbana durante o carnaval, destacam-se as menções sobre a ausência do prefeito e do governador na cidade neste período.

O reconhecimento por parte do governador da falta de planejamento da segurança para a realização do carnaval e a notícia de que a Comissão de Segurança Pública da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) vai convocar a cúpula de segurança para explicar os casos de violência no carnaval, mobilizou o debate nas redes no dia 14/02.

As menções à Polícia Militar do estado do Rio de Janeiro, durante o período analisado, alcançaram 450 postagens. As postagens com maior repercussão, com um maior alcance potencial de usuários, informam sobre a presença e o trabalho dos agentes durante os blocos de rua ou, ainda, sobre como entrar em contato com a instituição em caso de emergência. Outras postagens, no entanto, denunciam supostos crimes e apelam para a instituição por meio das redes.

Assédio: campanhas mobilizaram a rede no início do carnaval

O debate sobre assédio se concentrou nos primeiros dias do fim de semana, entre as 9h do dia 09/02 e as 6h do dia 11, com 580 referências a esse tema. Isso quer dizer que 72,5% do debate sobre assédio nos blocos de rua durante o carnaval carioca aconteceu somente nesse período. Foram observados dois grandes picos de menções, às 16h e às 21h do dia 09, que alcançaram 39 e 52 postagens, respectivamente.

Foi identificado no debate nas redes sociais sobre assédio no carnaval um predomínio de postagens com caráter mobilizador de diversas campanhas que vêm sendo disseminadas por entidades como a ONU e grupos de defesa das mulheres. Tal tendência já havia sido observada no levantamento realizado pela FGV DAPP no período pré-carnaval. Nas postagens são recorrentes textos afirmando que a roupa ou postura das mulheres nos blocos não é justificativa para o assédio, sendo replicadas por diversas vezes as hashtags #Não é Não!, #Respeitaasminas e #Carnavalsemassédio, sendo divulgados também números de telefone que possam ser acionados para denúncias, como #Ligue180.
As postagens com maior repercussão, ou seja, com maior alcance potencial de usuários, evidenciam a importância do respeito ao consentimento na abordagem durante o carnaval e tratam a questão do assédio como um tema que não atinge apenas as mulheres, incorporando também uma discussão mais ampla de gênero.

Interessante notar como estas campanhas contra o assédio no carnaval foram mobilizadas na web também em páginas do Twitter de diversas entidades, como times de futebol e grupos independentes, e personalidades políticas.

Deste modo, este volume maior de menções no período pré-carnaval e nos primeiros dias de carnaval sobre o tema indica um debate nas redes sociais de defesa dos direitos das mulheres e de respeito à liberdade de gênero nos blocos, mobilizado por diversas campanhas de conscientização.

Considerações finais

Observa-se que a decisão do governo federal em intervir na segurança pública do Rio de Janeiro ocorre em um contexto de extrema insatisfação com a violência no estado. Durante o carnaval, os debates nas redes sociais mencionaram principalmente os crimes ocorridos na cidade, gerando uma percepção negativa sobre a questão da segurança e a realização de blocos de rua.

Esse engajamento de cidadãos nas redes sociais foi potencializado pela veiculação de imagens, por diferentes meios de comunicação, que mostraram cenas de violência em diversos bairros da cidade. O aquecido debate sobre o tema na web evidenciou o sentimento de insegurança por parte da população, e, diante desse cenário, a ausência de atores políticos como o prefeito Marcelo Crivella, que foi para a Europa, e o governador Luiz Fernando Pezão, que viajou para o interior do estado, propiciaram postagens de indignação por parte dos internautas relatando o abandono em que o município e o estado se encontram.

Vale destacar que, além da divulgação de mensagens sobre a ausência de planejamento da área de segurança, a falta de ordenamento urbano também foi questionada pela população, com relatos de vandalismo, problemas de sujeira e dificuldades na mobilidade urbana da cidade.

Como consequência de todos os problemas de segurança que ocorreram durante o carnaval e o contexto atual de criminalidade vivenciado pelo estado, o anúncio do decreto de intervenção federal mobilizou significativamente as redes sociais, mas há grupos distintos, no âmbito da web, com opiniões diversas sobre a decisão do governo federal: seja em apoio à ação de intervenção, seja com desconfiança e medo.


Expediente

Amaro Grassi
Ana Luísa Azevedo
Dalby Dienstbach
Danielle Sanches
Danilo Carvalho
Lucas Calil
Thais Lobo


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