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Debate nas redes sobre assédio supera menções a roubos e furtos no pré-carnaval do Rio, aponta levantamento da FGV DAPP

Campanhas impulsionam 3.983 publicações sobre agressões contra mulheres em 11 dias; debate sobre violência soma 2.615 no mesmo período

há 4 meses por Ana Luísa Azevedo, Dalby Dienstbach, Danielle Sanches

Os núcleos de pesquisa aplicada em Segurança e Cidadania e em Política na Rede da FGV DAPP iniciaram neste ano uma série de estudos sobre menções nas redes sociais a respeito de eventos relacionados à segurança pública no país. O monitoramento das redes sociais permite analisar o sentimento dos indivíduos, trazendo à tona o debate público de diversas questões que envolvem esta temática. Nesta nova análise, aborda-se a percepção da população, manifestada na web, sobre segurança, violência e assédio contra mulheres durante o pré-carnaval carioca.

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O carnaval representa a maior festa popular do Rio de Janeiro, mobilizando a vinda de pessoas de diversas partes do país e do mundo. Entretanto, o aumento dos indicadores de criminalidade no Estado desperta uma preocupação de como será o período de folia, sobretudo em razão dos recorrentes registros de tiroteios que ocasionaram o fechamento de grandes vias e causaram medo entre a população.

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A análise sobre a categoria da segurança no carnaval considerou as menções sobre a presença policial e o sentimento de segurança das pessoas nos blocos, a categoria violência no carnaval liga-se a relatos sobre roubos, furtos, agressões e casos de vandalismo, enquanto a categoria do assédio refere-se a situações que envolvam desde algum tipo de constrangimento verbal até algum tipo de violência física com cunho sexual ocorrida nos blocos, sobretudo com mulheres.

O debate geral sobre segurança e violência na cidade do Rio de Janeiro, entre 0h01 do dia 26/01 e às 23h59 do dia 06/02, gerou 131.975 menções. Para a categoria segurança no carnaval do Rio de Janeiro foram identificadas 7.231 menções, somando postagens no Twitter, no Instagram, em sites de notícias e em blogs, o que representa 5,47% do debate no período analisado.

Em relação aos temas selecionados, a categoria assédio mobilizou 3.983 menções (cerca de 55,08% do debate); violência (furtos, roubos, assaltos etc.), 2.615 menções (cerca de 36,48% do debate); e segurança (policiamento, operações policiais, sentimento de insegurança etc.), 918 menções (cerca de 12,69%). É importante observar que os assuntos podem se sobrepor, ou seja, uma única postagem pode mencionar, ao mesmo tempo, assédio e segurança.

Assédio: campanhas como motor na rede

O debate sobre assédio no pré-carnaval predominou nos primeiros dias abordados na análise, aparecendo em 3.057 postagens, entre as 01h do dia 28/01 e as 23h do dia 29/01. Esse volume representa 76,75% de todas as menções sobre o assunto durante os doze dias analisados, que mobilizou 3.983 postagens. Nesse período, houve dois picos de menções. O primeiro deles foi por volta da 0h do dia 29/01, quando alcançou um total de 229 menções. Das 21h do dia 28/01 às 3h do dia 29/01, o debate mobilizou uma média de 2,39 menções por minuto (ou, ainda, uma média de 143,42 menções por hora). A postagem com maior repercussão (ou com o maior número de curtidas, compartilhamentos e respostas) foi um tuíte que sugere uma maneira de combater o assédio de mulheres durante o carnaval.

Esse tuíte também foi a postagem com maior repercussão no segundo pico de menções, que aconteceu às 12h do dia 29/01. Nesse horário, o debate alcançou 225 menções e, entre as 09h e as 15h do dia 29, mobilizou uma média de 2,69 menções por minuto (ou, ainda, uma média de 161,42 menções por hora). No dia 29, em que assédio contra mulheres foi o tema mais abordado no debate geral sobre segurança (que somou 2.549 menções), esse assunto representou cerca de 93,65% (ou 2.387 menções), superando violência (cerca de 5,53%) e segurança (cerca de 0,82%).

No período seguinte aos seus dois primeiros picos, assédio voltou a receber alguma atenção em outros três horários: às 12h do dia 01/2, alcançando 53 menções; às 23h do dia 2, com 39 menções; e às 19h do dia 03, com 31 menções. O tuíte que instruí para o combate ao assédio continuou sendo o protagonista nesses três horários.

Este protagonismo das discussões sobre assédio sexual nos primeiros dias que antecedem o carnaval indica uma mobilização nas redes sociais para que as mulheres se protejam e denunciem abusos e agressões, e que os homens se conscientizem sobre abordagens violentas e evitem este tipo de conduta. Importante contextualizar que estas menções representam um reflexo de campanhas que vêm sendo disseminadas por diversas organizações e grupos de defesa das mulheres, como a #RespeitaAsMina, da ONU Mulheres, e a #AconteceuNoCarnaval, apoiada por coletivos em diversos estados brasileiros. Além disso, nos próprios blocos já são observadas campanhas com a expressão “Não é não”.

Violência: tiroteio na Tijuca é destaque

O debate sobre a violência recebeu maior atenção durante os últimos dias da análise, aparecendo em 1.132 menções entre as 11h do dia 04/02 e as 23h do dia 06. Esse volume representa 43,28% de todo o debate sobre violência durante o período analisado, que mobilizou um total de 2.615 menções. Ao longo desse período, o debate mobilizou 0,31 menções por minuto (ou 18,93 menções por hora). Dois acontecimentos tiveram maior repercussão. Um deles se refere a um tiroteio envolvendo policiais e bandidos no mesmo momento que acontecia a dispersão de um bloco de rua na Tijuca, bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro, na noite do dia 27/01. O garçom Samuel Ferreira Coelho, de 24 anos, foi atingido por um tiro no peito durante o confronto e morreu na hora.

O outro acontecimento diz respeito ao momento em que foliões subiram no teto de um ônibus no Aterro do Flamengo, na Zona Sul da cidade, no dia 05/02. A postagem mais compartilhada sobre o tema inclui um vídeo de pessoas dançando em cima do veículo e critica os atos de vandalismo durante o bloco (pelo menos três ônibus foram danificados na ocasião).

Percepção de segurança: medo e ironias em evidência

O debate sobre a percepção de segurança nos blocos alcançou um total de 918 menções. Esse assunto chegou a mobilizar 27% (184 menções) das 677 postagens do debate geral no dia 05/02, em que obteve maior atenção, superando a discussão sobre violência (em 15%), porém, ficando atrás de assédio contra mulheres, que mobilizou 58% das discussões. Ao longo de todo o debate, questões envolvendo segurança mobilizaram uma média de 3,1 menções por hora. A postagem com maior repercussão é um tuíte em que o usuário faz um apelo para que a vida dos seus amigos seja preservada durante o carnaval. Diversas outras postagens expressam o medo de usuários com a segurança nos blocos, bem como o receio de que conhecidos sejam vítimas da violência. Essas postagens refletem um clima de descontentamento por parte da população em relação à violência na cidade.

Vale destacar ainda que esse sentimento de insegurança expresso por usuários do Twitter é percebido na esteira de recentes confrontos na cidade nas semanas que antecederam à folia. Análises anteriores da FGV DAPP do debate sobre tiroteios e fechamento de importantes vias da cidade apontam na mesma direção: a percepção de angústia da população quanto ao tema da segurança pública, na medida em que a violência afeta e cerceia o direito de ir e vir.

Observa-se também que diversas postagens usaram de ironias para criticar episódios de violência. Há menções em que se comparam fantasias do carnaval com roupas e equipamentos militares, e outras que recorrem à letra da música “Que tiro foi esse” para descrever conflitos, o que reflete o cenário de confrontos ocorridos na cidade.

 

Hashtags

Já entre as hashtags relacionadas aos assuntos do debate no Twitter que mais repercutiram ao longo do período analisado, destacam-se #carnavalseguro (com um alcance potencial de 3.522.813 usuários), #pmerj (com um alcance potencial de 2.624.523 de usuários); e #servireproteger (cujo alcance potencial é de 2.225.137). Essa última aparece, principalmente, em uma série de postagens feita pelo perfil da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ) no Twitter, dando detalhes sobre as medidas de segurança que a instituição têm tomado durante este período do ano ‒ tais como monitoramento aéreo dos blocos de rua, alocação de agentes em vias importantes da cidade, uso de pulseiras para identificação de crianças em blocos e a proibição de venda de bebidas alcoólicas para menores de idade.

A instituição é, inclusive, um dos atores públicos mais citados no debate. Os retuítes ou comentários que fazem referência à PMERJ, excluindo-se aqueles do próprio órgão, contabilizaram 106 menções. Destacam-se as postagens que alertam para situações de violência nos blocos com tom irônico, pedindo para se evitar a cidade no período de carnaval. Em relação à questão da presença da polícia há uma preocupação com o policiamento nas ruas e em situações como jogos de futebol, por conta da alocação do efetivo nos blocos de carnaval. Também observou-se uma mobilização por parte dos internautas em repassarem informações institucionais da presença da polícia em blocos específicos. Algumas postagens ressaltaram a escassez de recursos destinados ao policiamento.

Já o governador do estado do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão, e o prefeito da capital fluminense, Marcelo Crivella, aparecem em apenas sete menções e uma menção, respectivamente. Todas são críticas à atuação dos governantes, atribuindo negligência com a gestão da segurança pública.

Considerações finais

Nesta primeira análise sobre a segurança nos blocos no período pré-carnaval, destaca-se que há uma mobilização significativa nas redes sociais de campanhas contra o assédio sexual. A violência também compôs os debates na internet, sendo relatados eventos, como o episódio do tiroteio na Tijuca, durante a dispersão de um bloco de carnaval e os atos de vandalismo no bloco no Aterro do Flamengo. A percepção sobre a segurança foi marcada pelo receio da população de ser vitimada nos blocos, ao mesmo tempo em que foram feitas diversas postagens com tons críticos sobre a situação de criminalidade na cidade. Houve também uma mobilização para divulgação de postagens da polícia sobre a presença de policiamento nos blocos.


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