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Delação da JBS mobiliza mais de 2 milhões de menções no Twitter

Análise da FGV/DAPP mostra que repercussão de gravação envolvendo Temer e Aécio superou votação do impeachment de Dilma e mobilização da greve geral; "impeachment" e "eleições diretas" foram as principais demandas

há 2 meses

•Revelação de gravação envolvendo o Presidente Michel Temer e o Senador Aécio Neves teve mais de 2 milhões de menções no Twitter entre 19h de quarta e 17h de quinta;

•Meio milhão de menções mobilizam uma pauta formada por pedidos de Fora Temer, impeachment e eleições diretas;

•Em apenas 1h, o pronunciamento de Temer gerou cerca de 200 mil menções, com destaque para a frase “não renunciarei”;

•O debate sobre corrupção nas redes, desde quarta à noite, não apresenta a polarização comumente observada em discussões políticas no Twitter. Já havíamos observado essa tendência de crescimento dos independentes em estudo anterior;

•O volume de menções relacionadas ao tema da corrupção passava de 1,5 milhão nesta quinta-feira, até as 17h, no Monitor de Temas da FGV DAPP. O tema protestos chega a 233 mil menções, com tendência de crescimento;

•Na economia, o impacto mais imediato é quanto à tramitação e às perspectivas negativas das reformas trabalhista e previdenciária.

>>> Baixe a íntegra do relatório em PDF

Crise e castigo: A delação da JBS

A revelação de gravações envolvendo o presidente Michel Temer e o senador Aécio Neves em suposta interferência na Lava Jato — revelada no início da noite de quarta-feira pelo jornal “O Globo” — teve o efeito de uma verdadeira devastação política, evidenciada pela proporção tomada pelo debate nas redes sociais e por uma rápida convergência em torno de uma demanda por impeachment e eleições diretas. Desde as 19h de quarta, o evento alcançou mais de 2 milhões de menções no Twitter, superando eventos de enorme magnitude como os protestos ocorridos em março de 2015 (1.016.582 menções) e de 2016 (916.593 menções); o impeachment da ex-Presidente Dilma Rousseff na Câmara, em 17 de abril de 2016 (1.526.658 menções); e a greve geral do mês passado (1.460.160). Após o pronunciamento de Temer, em apenas 1 hora foram registradas cerca de 200 mil menções, com destaque para “não renunciarei”.

O debate nas redes se avoluma, portanto, como uma onda de insatisfação e indignação, tendo o Palácio do Planalto como alvo, e confirma tendências recentes, em que uma maioria sem coesão em torno de um ator ou posição política, para além da oposição aos acusados, assume protagonismo político.

O mapa de retweets a seguir, que analisou as menções ao tema corrupção nas últimas 12 horas, mostra justamente o absoluto predomínio dessa maioria — representada em cinza —, que não forma propriamente um grupo coeso, mas que converge em uma pauta. O grupo vermelho é formado por uma massa de perfis que retuítam perfis alinhados à oposição ao governo, que naturalmente são críticos a Temer, mas ficam em minoria diante da proporção adquirida pela crise. E o grupo azul, normalmente formado por usuários que retuítam postagens de conteúdo pró-governo, no que tange ao debate político, aparece “marginalizado” nesse cenário. É interessante notar que ambos os grupos azul e vermelho, apesar de geralmente aparecerem em polos opostos nos mapas de retuítes, aparecem aqui menos distanciados do restante dos usuários. Isso leva a crer que a descoberta dos áudios implicando Aécio Neves e Michel Temer conseguiu unificar os usuários na rede em torno de um posicionamento semelhante de uma forma pouco vista anteriormente em assuntos políticos, embora os atores continuem interagindo com perfis de notícia distintos.

Mapa de Retweets sobre Temer (Twitter – últimas 12h)

Nuvem de Palavras do Grupo Majoritário (Twitter – desde 19h de 17/05)

Nuvem de Palavras do Grupo Vermelho (Twitter – desde 19h de 17/05)

Nuvem de Palavras do Grupo Azul (Twitter – desde 19h de 17/05)

A pauta mobilizada por esses atores não poderia ser mais crítica para o governo e para o sistema político brasileiro. Desde já é claro que as redes convergem neste momento para pedir o impeachment de Temer e a convocação de eleições diretas — rejeitando claramente a ideia de que uma eventual sucessão seja realizada por eleição indireta. Desde as 19h de quarta-feira, “Fora Temer” teve cerca de 210 mil menções (cerca de 15% do total relacionado ao episódio), enquanto “impeachment” motivou 200 mil referências. As opções de renúncia e cassação da chapa Dilma-Temer pelo TSE têm volumes menores de menções — 15 mil (1% do total) e 6,8 mil (0,5%), respectivamente.

Volume de Menções a Temas (Twitter – até 17h)

Até 17h desta quinta-feira, o Monitor de Temas da FGV DAPP já registrava também mais de 1,5 milhão de menções relacionadas ao tema “corrupção”. Para efeitos de comparação, a greve geral de 28 de abril e o impeachment de Dilma tiveram — em 24 horas — cerca de 1,5 milhão de menções. O volume, já muito significativo, tende a evoluir rapidamente até o final do dia, evidenciando o predomínio do assunto neste momento. As menções a protestos, embora em menor dimensão, também apresentam tendência de crescimento (233 mil), indicando um ponto de atenção para as próximas horas e dias com a mobilização para atos de rua contra a corrupção e pedindo a saída do Presidente Temer. E, diferentemente de outros momentos, no atual cenário eventuais manifestações podem acabar atraindo um espectro mais amplo de alinhamentos políticos, unificados por uma pauta de “Fora Temer” — o Movimento Brasil Livre (MBL), por exemplo, que esteve na linha de frente do impeachment de Dilma, já pediu a saída do presidente — e mesmo de convocação de “eleições diretas”.

Distribuição das Menções a Temer no Facebook

A análise da distribuição geográfica das menções ao presidente Temer — a partir de uma amostra de 55 mil interações do Facebook — mostra o quão disseminado está o debate no país. As cores acima indicam a intensidade do debate (interações ponderadas pela população), ressaltando o impacto em Rio, São Paulo, Distrito Federal e no Nordeste, região onde Temer já possui popularidade mais baixa. Observa-se ainda, conforme o gráfico abaixo, um predomínio de interações nas faixas etárias entre 25 e 34 anos e entre 35 e 44 anos, com destaque para o primeiro grupo — o que indica forte rejeição a Temer justamente em um segmento, em geral, com maior capacidade de mobilização.

Distribuição das Interações sobre Temer por Faixa Etária

As menções à Lava Jato — analisada a partir de uma amostra de cerca de 40 mil interações no Facebook — reforça esse padrão, indicando a intensidade do debate no Sudeste e em estados como Pernambuco, Ceará e Rio Grande do Norte. Mas, do ponto de vista da distribuição etária, a concentração é maior no grupo entre 35 e 44 anos — que tende a concentrar o apoio à Lava Jato.

Distribuição das Interações sobre Lava Jato por Faixa Etária

Distribuição de Interações a Lava Jato no Facebook

Atores Políticos

A intensificação do debate sobre a crise política gerou também especulações a respeito dos atores mais atingidos e os que podem emergir ou ganhar força a partir de agora. Temer e o senador Aécio, devido ao envolvimento no episódio, têm naturalmente o maior volume de menções. Dilma e Lula aparecem em terceiro e quarto lugares, reforçando sua centralidade política — tanto por parte de apoiadores, que alavancam seus nomes, quanto de críticos, que tentam tragá-los para o centro da crise também. Em seguida, aparece o Presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, o primeiro na linha sucessória — e que assumiria interinamente a Presidência na hipótese de saída de Temer. E, na sequência, os atores que, de fato, começam a aparecer com perspectiva política, como o deputado Jair Bolsonaro (que tem aparecido regularmente como beneficiário da crise), o prefeito de São Paulo, João Doria (que tende também a herdar capital político com o enfraquecimento dos líderes do PSDB), e a Presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Carmen Lúcia, cujo nome vem sendo veiculado como opção para uma eventual sucessão. Aparecem ainda, porém com menor volume, atores como Geraldo Alckmin, Ciro Gomes, Marina Silva e o ministro Henrique Meirelles.

Menções a Temer, Aécio e Lula (Twitter – até 17h)

Menções a outros Atores Políticos (Twitter – até 17h)

Impacto na Economia

Outro fator que merece grande atenção é o impacto das revelações na economia brasileira, que vinha apresentando sinais recentes de superação da recessão — como a criação de vagas de emprego no mês de abril da ordem de 60 mil a partir do CAGED. Desde o começo da noite de quarta, foram identificadas cerca de 70 mil referências aos principais temas do debate econômico. O tópico mais destacado, concentrando 23% do debate, é a perspectiva em relação à aprovação das Reformas Trabalhista e da Previdência, em especial a partir de publicações da imprensa que questionam o futuro destas no Congresso. Em seguida, despontam comentários relacionados ao potencial impacto no mercado financeiro (Bovespa), citado em 13% das postagens, com mais de 8 mil tuítes sobre a repercussão nas bolsas de valores e no preço de ações do país. O debate quanto às reformas e ao mercado financeiro obtêm volume de menções muito superior ao de outros temas importantes, como a inflação e o desemprego, primeiro porque passa-se a enxergar o cenário das reformas como incerto, segundo porque o mercado financeiro é dinâmico e reage rápido frente às incertezas.

Relação entre termos do debate e as pautas econômicas

Considerações

Os desdobramentos da crise política indicam, portanto, um cenário de extrema gravidade, com alguns pontos que merecem grande atenção:

•A evolução das demandas por impeachment e eleições diretas deve ser definidora do desfecho que a crise terá neste momento;

•As menções a corrupção e, potencialmente, protestos podem indicar uma tendência de manifestações de massa pelas ruas;

•A discussão sobre a economia tem força no que diz respeito ao mercado financeiro e às especulações advindas das incertezas institucionais, em especial da realização das reformas anunciadas pelo governo;

•Conforme observado em outros momentos, o debate político nas redes deve ser protagonizado por uma maioria sem coesão política, mas que manifesta repúdio geral à classe política — e por isso converge neste momento.


Nota Metodológica

Para a análise da delação da JBS, foram utilizados dados tanto do Twitter quanto do Facebook. No Facebook, foram analisados mais de 55 mil interações relacionadas a Michel Temer, e mais de 40 mil interações relacionadas à Lava Jato. Em ambos os casos, trata-se de uma amostra. Já no Twitter, foi coletada uma amostra de 150 mil tweets para formar o mapa de retuítes, que representa cerca de 10% do volume total de dados referentes à delação. Os tweets coletados para a análise foram postados entre as 19h de quarta-feira e 10h desta quinta-feira.

Os grafos (mapas de retuítes) são visualizações das redes de interações entre perfis, aplicáveis a quaisquer bases de dados em que os interlocutores se relacionam por algum atributo. Para agregar os dados no Twitter, a FGV/DAPP não usa apenas palavras-chaves ou hashtags isoladas, mas também aplica uma abordagem calcada na semiótica discursiva para fazer a filtragem de postagens por temas.
Já a nuvem de palavras apresenta os principais termos, por ordem de maior frequência, utilizados por cada um dos clusters identificados na rede de retuítes.

Para saber mais sobre a metodologia de trabalho, acesse o documento “Nem tão simples assim: O desafio de monitorar políticas públicas nas redes sociais”.


FGV/DAPP

Diretor
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Equipe
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