Denúncias de tráfico de drogas na cidade do Rio voltam a crescer após queda desde 2013

Dados do Disque Denúncia compilados pela FGV DAPP mostram que houve 14.278 denúncias sobre o crime em 2017, 52% referentes a ocorrências na Zona Norte

há 8 meses por Andressa Contarato, Danielle Sanches

Ao longo das últimas décadas, o estado do Rio de Janeiro e, principalmente, a capital foram palco de diversas políticas públicas de segurança que buscaram a redução dos indicadores relacionados a violência, porém a sensação de insegurança é cada vez mais presente. Dada a relevância do tema, esta análise tem o objetivo dar um panorama dos números, da distribuição e da dimensão das denúncias sobre o crime de tráfico de drogas na cidade do Rio de Janeiro a fim de observar se houve mudanças na sua abrangência territorial e, consequentemente, na sua relação com as comunidades. Para tal, a FGV DAPP utilizou dados cedidos pelo Disque Denúncia e disponibilizados na plataforma #observasegurança.

De janeiro de 2013 a dezembro de 2017 — período abrangido pelo projeto de pesquisa executado pela FGV DAPP Denúncia, Crime e Castigo —, o Disque Denúncia recebeu um total de 218.589 denúncias de crimes de tráfico de drogas no estado do Rio de Janeiro, sendo 96.539 delas (44,2%) localizadas na cidade do Rio de Janeiro. Como é possível observar no gráfico a seguir, o número de denúncias na capital apresentou uma queda progressiva até 2016, quando foram computadas 11.950 denúncias. Entretanto, em 2017 elas voltaram a crescer, chegando a 14.278.

Esse aumento pode estar ligado a campanhas feitas pelo Disque Denúncia para que ocorram prisões de traficantes nas diferentes comunidades da cidade promovendo maior engajamento da população para fazer denúncias. Também é importante pontuar que, de acordo com Willadino, Nascimento e Souza e Silva (2018, p.23), a crise de recursos [1] e a perda de legitimidade que atingiram as Unidades de Polícia Pacificadora fizeram com que traficantes retornassem para comunidades outrora pacificadas [2].

A distribuição de denúncias por regiões da capital em 2017 mostra que a Zona Norte da cidade concentrou 51,9% delas, seguida pela Zona Oeste, com 31%. Já entre os bairros com maior volume de denúncias sobre tráfico de drogas em 2017, Bangu foi o que mais denunciou este crime (644 denúncias), seguido pela Pavuna (316 denúncias).

Em comparação com 2013, verifica-se que houve uma mobilidade geográfica das denúncias sobre tráfico de drogas. Naquele ano, o bairro que mais contou com esse tipo de denúncia foi Anchieta (1.799 denúncias), na Zona Norte, ficando Bangu (1.585 denúncias) em segundo lugar, Santa Cruz (851 denúncias) em terceiro e Pavuna (756 denúncias) em quarto.

A concentração dessas denúncias em Bangu está relacionada a ações de diferentes facções nas comunidades do bairro. Esta afirmação fica mais clara quando observamos os tipos de denúncias mais recorrentes: “denúncia contra tráfico” compõe a maioria, seguida por “denúncia contra traficantes” e “venda de drogas”.

De forma geral, as denúncias contra o tráfico relatam a presença de facções criminosas e a atuação das mesmas nas comunidades, como mostram os trechos a seguir.

“No final da Rua X, podem ser vistos todos os dias por 24h, cerca de trinta traficantes de drogas, armados, comercializando entorpecentes. A rua foi obstruída com trilhos de trem”.

“Na Avenida mencionada, atrás do trailer do Y, três traficantes enterraram dois fuzis e duas metralhadoras”.

“Na Rua citada traficantes promovem bailes funk aos sábados a partir das 22h, se estendendo até a manhã do dia seguinte. Durante os eventos ocorre livre consumo de drogas e a presença de traficantes, fortemente armados”.

É importante chamar a atenção para o fato de que a utilização das denúncias como fonte de informação pelos policiais é essencial para a formulação de ações de inteligência. Dessa forma, tais bases de dados permitem que as forças de segurança possam agir com maior conhecimento sobre o comportamento do crime organizado em determinadas localidades, além de investigarem com mais eficiência as informações que possam corresponder aos envolvidos nestas organizações em cada bairro da cidade do Rio de Janeiro.


Notas

[1] SETA, Isabel. A falência das UPPs. Exame, São Paulo, 3 jul. 2017. Disponível em: https://exame.abril.com.br/brasil/a-falencia-das-upps/. Acesso em: 24 jan/2019.

[2] WILLADINO, Raquel; NASCIMENTO, Rodrigo Costa; SILVA, Jailson de Souza. Novas configurações das redes criminosas após a implantação das UPPs. Rio de Janeiro: Observatório de Favelas, 2018. Disponível em: http://of.org.br/wp-content/uploads/2018/07/E-BOOK_Novas-Configurações-das-Redes-Criminosas-após-implantação-das-UPPs.pdf. Acesso em: 24 jan. 2019.