Digitalização e Democracia: palestrantes analisam a influência das redes sociais nos processos políticos e na desconfiança nas instituições

Mudanças nas formas de manifestação e no espaço de debate público interferem no entendimento da democracia

há 6 meses

A Diretoria de Análise de Políticas Públicas (FGV DAPP) e a Escola de Direito do Rio de Janeiro (FGV Direito Rio) da Fundação Getulio Vargas (FGV), em conjunto com a Embaixada da República Federal da Alemanha, realizaram hoje (24 de maio) o painel de debate “Digitalização e Democracia: Como fortalecer a democracia no Brasil e na Europa para a era digital?”.

Os palestrantes analisaram a influência das redes sociais no debate político, com a moderação da ombudsman da Folha de S.Paulo, Flávia Lima.

—  A política está se transformando em narrativas do que realmente aconteceu. Em alguns momentos, o que a gente vê é que os dois polos se juntam em perspectiva de descrédito da representação política. Há um trânsito entre polarização e descrédito — ,  afirmou o diretor da FGV DAPP, Marco Aurelio Ruediger, que também apresentou análises feitas pela Diretoria no contexto de eleições e da experiência absorvida com a Sala de Democracia.

A forma como a democracia é percebida pela sociedade também foi levantada, principalmente pela professora Jeanette Hofmann, do Weizenbaum Institut for the Networked Society, de Berlim, que apresentou ideias de especialistas no assunto.

— A digitalização está movendo a democracia e ambas se movem de forma linear, separada do desenvolvimento da sociedade. Parece que a democracia pode ser avivada com as mídias digitais, mas está sendo enfraquecida por essa relação, explicou Hofmann, que também entende que a falta de confiança nos governos leva as pessoas à uma necessidade maior de se expressar nas redes sociais para falar de interesses individuais. Tudo isso, segundo ela, faz com que o espaço público mude e as redes sociais são o meio que a sociedade encontrou: — Nós não deveríamos responsabilizar as redes sociais para tudo que achamos problemáticos nesse momento. Temos que entender o papel dessas mídias — , afirmou.

Nesta mesma linha de pensamento que discutiu a mudança dos espaços de discussão, o jornalista Thomas Traumann falou muito do entendimento dos políticos sobre as redes, usando o exemplo das Jornadas de 2013, no Brasil,  e como essa pode ser uma plataforma para que eles prestem contas com a sociedade.

– Todos os governos sofreram em 2013. Houve uma erosão muito clara a partir das jornadas, foi um marco de toda a mudança que a gente vem tendo. No fundo, a questão não é a digitalização, a questão são as pessoas por trás disso. A esfinge que o Brasil enfrenta hoje é como fazer com que os eleitores se sintam representados pelos políticos em quem eles votaram— disse Traumann.

O professor Ivar Hartmann levou a discussão mais para o lado acadêmico e para discutir o quanto questões complexas como as que foram apresentadas precisam de longas análises teóricas: — Existe um paradoxo entre a capacidade que a academia tem de entender o que está acontecendo e o quão rápido essas mudanças estão ocorrendo. Mudanças mais rápidas, demandam uma análise maior. Não há mais um diálogo público comum —, afirmou ele.

A ideia de regular o debate com leis que dificultem a disseminação de fake news e o trabalho dos robôs é descartada com o argumento de que isso prejudicaria a liberdade de expressão na internet. Hofmann defendeu que precisamos aprender a conviver com essas interferências e ficar alertas para a qualidade das informações que consumimos.

Veja na íntegra: