Educação e corrupção polarizam debate político, mas direitos humanos lidera menções ao novo governo

Discussões no Twitter sobre os primeiros dias do governo ganham cunho sarcástico em grupos de apoio e de oposição ao presidente; Previdência e reajuste do salário mínimo impulsionam discussão sobre economia, que retoma segundo lugar entre temas mais discutidos

há 7 meses

Finalizada a primeira semana após a posse de Jair Bolsonaro, nota-se nas redes sociais forte aumento do uso do humor e da ironia como ferramenta principal de exercício da polarização entre apoiadores do presidente e perfis de oposição. Da mesma forma, em lugar da organização do debate a partir de agendas, como havia ocorrido após a cerimônia de posse de Bolsonaro e a apresentação dos novos ministros, a partir de 02 de janeiro a discussão se fragmentou nos diferentes grupos.

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Os quatro principais grupos do mapa de interações abaixo (formado a partir de uma base de 3.680.355 tuítes, dos quais 2.140.176 são retuítes, já excluídos robôs) mobilizaram-se a partir de reportagens e informações de distintas pautas, sem que temas fossem engajados em particular por perfis influenciadores. Pelo contrário, houve a repercussão de muitas pautas em cada grupo, com um (ou poucos) perfis de impacto conduzindo cada interação temática, quase sempre com ataques, piadas ou memes. Não raro, perfis de todos os lados do debate partiram de fatos políticos ou de temas de políticas públicas para fazer críticas de tom pessoal a adversários, inclusive com alusões a aspectos da vida privada/profissional de rivais.

Mapa de interações no debate via Twitter

O tom satírico do debate político associado ao novo governo, antes pouco relevante nos grupos azul (situação) e vermelho (oposição alinhada a partidos de esquerda), também foi incorporado por estes como estratégia retórica de engajamento nas redes sociais. No grupo em vermelho, que reúne os perfis de influenciadores e políticos ligados a partidos de esquerda (19,9% dos perfis e 29,6% das interações), os principais condutores do debate são atores partidários, blogueiros e veículos da imprensa tradicional.

Do outro lado, no grupo de apoio ao presidente, em azul (17,9% dos perfis e 36,2% das interações — o mais ativo do mapa), encontra-se a mesma retórica para questionar as gestões passadas do PT e fazer inferências sobre o papel da esquerda em diferentes aspectos da sociedade brasileira. Em comum entre os dois núcleos polarizados está a ênfase a notícias e tópicos vinculados à corrupção e à educação pública no país, embora nenhum desses macrotemas seja muito predominante no engajamento dos debates em cada grupo.

Os dois outros grupos de relevância do mapa são ainda mais abertamente dependentes do humor do que as bases vermelha e azul. O rosa, maior grupo do mapa em número de perfis (49,5%, com 29,2% de interações) e que congrega influenciadores digitais, políticos e personalidades da internet de oposição a Bolsonaro — independentes em relação à esfera de influência do PT —, divide as críticas a iniciativas e nomes do governo. Também enfatizam, como eixo temático das piadas e memes, tópicos ligados à defesa do feminismo e de questões de direitos humanos.

Já no grupo laranja (5,1% dos perfis e 2,9% das interações), as postagens de humor congregam, de forma única na composição do mapa de interações, nomes tanto da oposição a Bolsonaro quanto alinhados à direita, mas que se posicionam de forma crítica sobre o novo governo em algumas pautas. Um perfil de paródia ao jornal “Folha de S. Paulo” é o principal influenciador do grupo, com publicações que ironizam o desempenho do início do governo de Bolsonaro. Os perfis do grupo também confrontam as promessas de campanha com as primeiras iniciativas da nova gestão.

O debate no Twitter na semana

Após a repercussão imediata da posse de Bolsonaro, o contorno temático do debate associado ao governo nas redes diversificou-se, organizado a partir de cinco grandes macrotemas: direitos humanos; economia — que demonstra aumento no volume de menções desde o fim de dezembro; segurança pública; corrupção; e educação pública (que, dos cinco, foi o de menor impacto no debate durante o período eleitoral). Em direitos humanos, a pauta central é a discussão sobre o uso de rosa e azul para meninos e meninas, que foi base para manifestações polarizadas entre favoráveis e opositores ao governo e se associou principalmente a subtemas de educação pública, como ideologia e valores religiosos no ensino.

Em economia, as pautas se aproximaram mais do conteúdo noticioso desta primeira semana do governo Bolsonaro e apresentaram maior diversificação. A Reforma da Previdência foi o tema econômico de impacto mais amplo, em termos de volume de menções, seguida pelo reajuste do salário mínimo, da troca das presidências nos bancos estatais — ajuste fiscal e transparência — e da mudança na tributação. Revisões e cancelamentos de contratos de diferentes pastas do governo também obtiveram repercussão, mas perfis de oposição a Bolsonaro se dedicaram ainda a abordar impactos futuros de políticas ambientais e de relações exteriores na economia do país.

A temática de segurança pública, por outro lado, obteve maior concentração de debate a partir do envio de forças federais ao Ceará, da atuação do ex-juiz Sérgio Moro na reconfiguração do Ministério da Justiça e Segurança Pública e na reprodução de discussões que remontam ao período anterior às eleições sobre o endurecimento no combate ao crime. Outras duas pautas recentes de repercussão são a instalação de uma base militar dos Estados Unidos no país, já descartada pela Presidência, e o decreto que facilitará o acesso a armas para os cidadãos brasileiros.

Todos os assuntos acima descritos já despontavam há muitos meses como os de maior força nas redes sociais do Brasil. Em educação, contudo, verifica-se resultado mais robusto na web das primeiras ações do governo ao modificar o panorama temático das discussões — principalmente por conta das mudanças no corpo técnico que coordenará as diretrizes de ensino do Brasil e o Enem. Há debate de intensa polarização sobre a influência de posições de esquerda na educação brasileira e antagonismo entre cientificismo e religiosidade como padrões de instrução educacional. A notícia de que o MEC alteraria as regras de publicação de livros didáticos respondeu por mais de 80 mil tuítes.