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Extrema-direita domina debate sobre eleição da Holanda apesar de derrota

Levantamento do núcleo de análises de redes sociais da FGV/DAPP aponta que tema mobilizou 56% do debate online fora dos Países Baixos

há 8 meses por Tatiana Terra Ruediger

As eleições nos Países Baixos foram fonte de muita expectativa e debate nas redes sociais durante as últimas semanas, diante do temor de que a extrema-direita pudesse ganhar maioria no Parlamento holandês. Levantamento do núcleo de análise de redes sociais da FGV/DAPP mostra que o PVV (Partido da Liberdade), de extrema-direita, foi, possivelmente, o pivô de maior parte da polêmica em torno das eleições, apesar do desempenho aquém do que o previsto pelas pesquisas de opinião. O premiê conservador da Holanda, Mark Rutte, e seu partido, o VVD (Partido Popular para a Liberdade e Democracia), venceram as eleições parlamentares, conquistando 33 dos 150 assentos.

A pesquisa analisou 1 milhão de menções ao tema no período de uma semana e levou em conta termos-chave relacionados às eleições, tanto em inglês quanto em holandês, em sites de notícias, blogs, Twitter e Facebook. Uma vez coletados os dados, foram criadas categorias para monitorar a discussão nas redes acerca dos principais partidos que participavam das eleições.

Muitos dos tweets mais populares mostram-se favoráveis ao partido e defendem pautas que são tradicionalmente da extrema-direita. A hashtag mais usada foi #PVV, e o político mais mencionado em uso de hashtags foi o líder do PVV, Geert Wilders, que se posiciona como eurocético, xenófobo, anti-islã e contrário à imigração.

Dentre os usuários mais mencionados também encontramos o próprio Wilders, seguido pelo @V_of_Europe, de perfil xenófobo e eurocético.

Muitos tweets procuravam demonstrar apoio ao PVV. No tweet mais compartilhado, pode-se identificar caráter conservador, como demonstrado a seguir:

Já o segundo mais compartilhado parece comemorar o resultado das eleições, apesar de citar o desempenho eleitoral do PVV aquém do esperado.

É interessante notar ainda que o PVV, apesar de dominar as menções nas redes, representa apenas 42% do debate dentro dos Países Baixos, como podemos ver no gráfico abaixo.

No entanto, quando olhamos para menções fora dos Países Baixos, a proporção de referências ao PVV e/ou a Wilders salta para 56% do debate. Isso ocorreu, provavelmente, por conta do medo de uma desestabilização geopolítica diante do crescimento do PVV nas pesquisas de opinião, principalmente no final de 2016. O temor era de que a vitória da legenda nas urnas representaria mais um golpe para a União Europeia, o que poderia agravar a situação do bloco, possivelmente já abalado com o Brexit.

Apesar do PVV e de seu líder dominarem os debates nas redes sociais, o desempenho de ambos não foi tão bom na realidade, garantindo apenas 20 assentos nas eleições — em 2010, a legenda conquistou 24 lugares. Como pode-se observar na nuvem a seguir, entre as palavras mais frequentes associadas ao PVV e a Wilders estão “Europa”, “anti-islã”, “Brexit” e “anti-muçulmano”, representando alguns dos maiores temores associados ao partido e ao seu líder. Também nota-se que o nome do próprio Wilders aparece conjugado ao adjetivo “populista”.

Ao analisar as palavras mais frequentes relacionadas ao VVD, partido do atual primeiro-ministro, Mark Rutte, podemos verificar que o tema mais importante da última semana foi “Turquia”. Segundo algumas análises de conjuntura, o posicionamento do atual premier ao impedir a entrada de ministros turcos no país para realizarem discursos sobre as próximas eleições turcas teria sido eficiente em cooptar potenciais eleitores de Wilders que simpatizam com a causa anti-islã e anti-imigração. Dado o volume de menções relacionado à Turquia, parece que o último embate entre o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, e Rutte, de fato, deve ter contribuído para a vitória do VVD.

Nos Países Baixos, a discussão nas redes puderam ser identificadas, principalmente, em Amsterdam, Rotterdam e Haia, tendo aumentado muito nos dois dias anteriores à eleição.

Passadas as eleições, o tema mais falado no dia 16 foi “DENK”, como pode-se observar na nuvem de palavras mais frequentes. O DENK é um partido fundado em 2015 por dois turco-holandeses que busca estabelecer uma sociedade tolerante e solidária, colocando-se de forma contrária à atual onda de xenofobia e racismo que assola o continente.

O partido — alvo de críticos que o identificam como porta-voz de Erdogan — conseguiu três assentos no Parlamento, tornando-se a primeira legenda de minoria étnica a ser representado na Casa. A conquista inesperada despertou revolta nas redes sociais, e muitos posts se referiram ao partido como sendo muçulmano, racista e inimigo dos Países Baixos. Dentro deste espectro, o

Líder do partido D66, Alexander Pechtold, foi muito criticado por se recusar a dialogar com o PVV, mas não com o DENK.

No entanto, muitos destes mesmos internautas parecem não manter o mesmo tom crítico quando se trata de Geert Wilders ou do PVV. O Voice of Europe (@V_of_Europe), por exemplo, tem posicionamento anti União Europeia e de extrema-direita. O Islamism Map (@IslamismMap), por sua vez, busca mapear a expansão do Hamas e da Irmandade Muçulmana no mundo, e pelo teor de suas postagens parece ter posicionamento islamofóbico.

Portanto, fica difícil saber em que medida as críticas ao DENK são pertinentes ou o quanto isso seria reflexo de um anti-islamismo por parte de tais autores. O que é certo é que, apesar da derrota de Wilders nas urnas, o embate entre a extrema-direita e a questão muçulmana no país ainda será um desafio para seus governantes nos anos que virão.


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