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FGV DAPP analisa polarização do debate público no Twitter sobre Lula em quatro momentos

Condução coercitiva, julgamento do TRF-4, no julgamento do habeas corpus no STF e decreto de prisão são mapeados e somam quase 4 milhões de tuítes

há 2 semanas

Levantamento da FGV DAPP analisou o debate público no Twitter sobre o ex-presidente Lula em quatro momentos: na condução coercitiva, em março de 2016; no julgamento do TRF-4, em janeiro de 2018; no julgamento do habeas corpus no STF; e no decreto de prisão, ambos em abril de 2018. Foi verificado, dentro do recorte temático de cada evento político, como se deu a polarização dos grupos alinhados à direita e à esquerda no Twitter e como Lula foi mencionado pelos mesmos durante as discussões dos eventos.

É importante lembrar que os valores absolutos encontrados durante cada período analisado variam devido a múltiplos fatores, inclusive ao próprio teor específico de cada evento político. Isso dificulta uma comparação direta dos números encontrados em cada período e grupo, e faz com que a interpretação de um aumento ou diminuição da discussão sobre os eventos seja questionável.

Condução Coercitiva

Dois anos atrás, antes do impeachment de Dilma Rousseff e do estabelecimento de candidaturas eleitorais para as eleições deste ano, ainda havia um volumoso grupo de perfis e atores que, ao debater Lula, não se articulavam com nenhum dos dois eixos de maior politização (a favor e contra o ex-presidente). Isso se fez evidente durante a discussão sobre o mandado de condução coercitiva feito pelo juiz Sérgio Moro, para que Lula fosse depor na Polícia Federal, em São Paulo, em março de 2016.

Mapa de interações sobre a condução coercitiva de Lula
Período de análise: 0h de 4 de março de 2016 até 0h de 5 de março de 2016 | Fonte: Twitter
304.899 retuítes

A análise dos agrupamentos em função do tema, no Twitter, quando Lula foi conduzido coercitivamente, apontam que, para além dos dois grupos polarizados de oposição ou apoio ao ex-presidente, o principal núcleo da discussão foi engajado por celebridades e perfis de humor, em grande maioria críticos de Lula, mas que abordaram o assunto pela piada e pela ironia, sem forte associação a questões políticas. Esse núcleo (amarelo) respondeu por 31,5% do debate, com sátiras à visita da Polícia Federal à residência de Lula e provocações a petistas e perfis de esquerda.

Um outro grupo (verde), com 25,9% da discussão, manteve a mesma natureza humorística, e que se diferencia pelo núcleo majoritário pelo comportamento menos ácido em relação a Lula em si, com maior ênfase irônica ao episódio em específico, a condução coercitiva, e ao impacto geral da notícia. Por isso, satirizam a cobertura incessante da imprensa sobre Lula, a posição dominante do ex-presidente no debate público e a polarização entre “coxinhas” e “mortadelas” que orbita em função do petista. Ou seja: mais da metade da discussão não esteve diretamente vinculada a grupos de posição político-partidária bem delineada.

Grupo Pró-Lula ( 9.21% dos perfis, 104.469 tuítes)

Os defensores de Lula ocupam apenas 9,2% da discussão (grupo vermelho), em ampla desvantagem para os atores que se manifestam politicamente em oposição ao petista, que responderam por 23,7% (grupo azul). No grupo pró-Lula, o principal ponto de crítica é em relação à acusação de parcialidade contra o ex-presidente, com reprovação da conduta de Moro, da cobertura da imprensa, da “espetacularização” da condução coercitiva e da supressão do direito de ampla defesa conferido a Lula. Por isso, os perfis desse grupo ressaltam o legado presidencial dos governos do PT, bandeiras sociais das gestões petistas, o histórico de ascensão de Lula a partir da pobreza e a popularidade de que ainda desfruta.

Grupo Contra Lula (23.65% dos perfis, 182.399 tuítes )

Entre os opositores de Lula, ainda não se manifestava, à época, acirramento de posicionamentos alinhados a discursos de ódio. Predominou, na discussão, postura de celebração a partir do avanço na investigação contra o petista, com ênfases ao princípio de que todos são iguais perante a lei, críticas à incompatibilidade entre o discurso do ex-presidente e as práticas de que é acusado e saudações de apoio ao juiz Sérgio Moro. Também se contesta a divisão, atribuída ao PT, da sociedade entre ricos e pobres, e se comemora o fato de que Lula, por não ter formação superior, ficaria em uma cela comum.

Nesse grupo, apenas se observa postagens com maior postura agressiva em poucos atores que, ao criticar a esquerda como partidária de posições violentas e do uso de armas para contestar regimes políticos, endossam a violência policial contra manifestantes que vão às ruas em favor de Lula, com mensagens de elogio à repressão da polícia ao coibir “insurgentes”.

Julgamento TRF-4

Sobre o julgamento de Lula em janeiro de 2018, foram coletados 1.298.246 tweets de 218.960 contas diferentes durante o dia 24. Na análise das postagens, identificamos dois pólos opostos discutindo o julgamento: um apoiando a condenação do ex-presidente, e outro apoiando a inocência do mesmo. O grupo a favor da condenação do ex-presidente (azul) foi responsável por cerca de 35,4% das contas que integraram o debate. O grupo contrário (vermelho), por sua vez, foi composto por 44,1% dos perfis.

Mapa de interações sobre o julgamento de Lula no TRF-4
Período de análise: 0h de 24 de janeiro até 0h de 25 de janeiro | Fonte: Twitter
709.241 retuítes

Grupo Contra Lula (35.37% dos perfis, 615.285 tweets)

Muitas postagens do grupo utilizam tom agressivo para caracterizar o ex-presidente Lula e também os filiados e simpatizantes do PT, o que pode ser entendido como um forte sentimento de anti-petismo por parte dos perfis. Os membros do grupo consideram as reclamações dos defensores de Lula um “blá blá blá”, e os defensores são muitas vezes caracterizados como “vagabundos”, “maconheiros”, “trouxas”, “bolivarianos”. Lula, por sua vez, é caracterizado como “corrupto”, “ladrão”, “bêbado”, “burro”. Além disso, a maior parte dos tuítes ironiza o argumento da oposição de falta de provas.

Dentre as postagens mais difundidas, encontramos comparações do ex-presidente a Fernandinho Beira-mar que, “apesar de não ter sido pego com cocaína, era o rei do tráfico”; e ao goleiro Bruno, que seria “criminoso e cheio de fãs como Lula, com a diferença que o goleiro que teria comprado o seu sítio honestamente”. Outra postagem afirma que o ex-presidente “roubou bilhões, sendo culpado por quebrar a Petrobras e condenado a prisão, e mesmo assim a esquerda se une para salvá-lo”.

Grupo Pró-Lula

O grupo, por sua vez, critica majoritariamente a falta de provas apresentadas no julgamento e veredicto de condenação ao ex-presidente, o que leva grande parte a concluir que o processo jurídico não foi neutro. Os perfis também oferecem muitas mensagens de apoio a Lula. O tuíte mais compartilhado no grupo critica àqueles que não demonstraram revolta quando o Congresso salvou Temer e Gilmar Mendes embarreirou a investigação de Aécio, mas que dizem querer salvar o país da corrupção e de todos os corruptos.

Uma outra postagem amplamente difundida foi uma avaliação de que o maior erro de Lula possa ter sido “tirar o Brasil do mapa da fome ou ter incluído, por meio de seus programas, a classe mais pobre nas universidades”, reforçando a ideia de que a condenação tenha sido mais por conta de um incômodo por parte da elite do país perante a ascensão dos pobres. Muitos internautas relembram as conquistas de Lula durante o seu governo, como o fato do ex-presidente ter sido responsável pela implementação do SISU.

Julgamento STF 

Sobre o julgamento de habeas corpus do STF em abril de 2018, foram coletados 1.043.690 tweets de 127.000 usuários únicos entre a 0h do dia 4 até as 10h da manhã durante o dia 5. Identificamos dois pólos opostos discutindo o julgamento: um apoiando o habeas corpus e a liberdade de Lula e outro contrário. O grupo a favor da condenação do ex-presidente (azul) foi responsável por cerca de 35,9% das contas que integraram o debate. O grupo contrário (vermelho), por sua vez, foi composto por 25% dos perfis, e é formado em sua maioria por atores que se opõem a Lula.

Mapa de interações sobre o julgamento do habeas corpus de Lula no STF
Período de análise: 0h de 4 de abril até 0h de 5 de abril | Fonte: Twitter
574.910 retuítes

Grupo Contra Lula (35,9% dos perfis, 167.767 tweets)

De forma geral, as postagens do grupo são menos agressivas que na época do julgamento do ex-presidente. A maior parte dos tuítes compartilhados pelo grupo discute o andamento do julgamento e comemora seu resultado, além de pedirem a prisão de Lula, utilizando a hashtag #LulaPresoAmanhã. Muitos tuítes comemoram a decisão do STF como um passo importante para o fim da impunidade. Além disso, muitos tuítes defendem a postagem do comandante do exército general Eduardo Villas Bôas, feita no dia 3 de abril. No entanto, apesar dos ânimos menos exaltados na discussão sobre o STF, ainda vemos muitas caracterizações do ex-presidente como “criminoso”, “ladrão”, “corrupto” e até “lavador de dinheiro”.

Em postagem amplamente difundida, Eduardo Bolsonaro (@BolsonaroSP) diz que quem defende a liberdade de Lula “está com medo de ser o próximo da lista a ser preso”. Assim como Eduardo Bolsonaro, outros internautas também aproveitam a situação para criticar e até mesmo debochar dos defensores de Lula.

Grupo Pró-Lula (25% dos perfis, 272.586 tweets)

O grupo não traz novos argumentos em relação às discussões anteriores sobre Lula e sua prisão. Os tuítes compartilhados no grupo defendem o ex-presidente e reprovam o posicionamento do STF. Criticam também os que pedem sua prisão, e os que associam a corrupção exclusivamente ao PT.

Moro decreta prisão de Lula

Finalizado o julgamento no STF e definida a derrota de Lula, entre quinta-feira (05) e sexta-feira (06) o debate sobre o ex-presidente se articulou, inicialmente, a partir das comemorações e lamentos sobre o resultado no Supremo e, depois, se intensificou com a expedição, pelo juiz Sérgio Moro, do mandado de prisão contra o petista. De 10h desta quinta às 10h de sexta, a discussão sobre Lula no Twitter gerou 1,077 milhão de postagens, novamente com o grupo contra Lula em maior presença que o grupo de apoio ao ex-presidente — embora haja significativa presença de atores que não manifestam explícito engajamento com a militância petista ou de esquerda, mas que declaram oposição a políticos da direita e ironizam a imagem de que a prisão de Lula representa uma “vitória na luta contra a corrupção”.

De fato, o grupo com maior quantidade de perfis na discussão, identificado no grafo em laranja, organiza 42,9% do debate e é protagonizado por ironias sobre o processo contra Lula. Boa parte dos atores rejeita apoio eleitoral ao PT e ao ex-presidente, mas satiriza o antipetismo e a falta de questionamentos à prisão e condenação de outros políticos de outros partidos, como Michel Temer e Aécio Neves (principalmente). O foco discursivo principal desse grupo reside na demonstração de um anseio de igualdade de julgamento para toda a classe política, inclusive com forte rejeição a Jair Bolsonaro. Também é expressivo o engajamento sem tomada de posição política, com piadas, memes e trocadilhos sobre Lula na cadeia.

Grupo Contra Lula (25,72% dos perfis, 417.608 tweets)

O grupo explicitamente antiLula está em azul, com 25,72% do grafo, comemora a iminente prisão do petista e repercute cada passo do processo de execução da pena por Lula; analisam o engajamento militante em São Bernardo do Campo, os recursos finais da defesa do ex-presidente, o posicionamento de Lula e do PT em relação ao mandado expedido por Moro. Ao contrário de outros momentos da polarização associada a Lula, as figuras políticas da direita (mesmo Bolsonaro) ficaram com pouco espaço nessa discussão — cujo ator central, celebrado e enaltecido como principal responsável pela prisão de Lula, é, exclusivamente, Moro. Até pelo predomínio de celebrações e mensagens felizes, está ausente um discurso de ódio que extrapole a comemoração em ver Lula atrás das grades, como exemplo do cumprimento da Justiça e de afirmação da democracia.

Grupo Pró-Lula (14,93% dos perfis, 270.547 tweets)

Já o núcleo em vermelho, com 14,9% do grafo, se articula em função dos perfis de Lula, do PT, de outros políticos do partido e de legendas alinhadas à esquerda, como o Psol e o PC do B. Esse grupo apresenta maior unidade discursiva, a partir das mensagens divulgadas por Lula e outros atores, e também com maior impacto de um grupo menor de perfis sobre toda a discussão — no grupo em azul, o debate é mais fragmentado e menos vinculado a influenciadores específicos.

Por fim, em rosa, com 11,63% do grafo, o tom irônico e sarcástico identificado com o grupo em laranja se repete, mas com posicionamento mais crítico a Lula (e igualmente a outros políticos), maior volume de piadas que valorizam a figura de Moro e forte presença de associações a tópicos variados do debate público, como o futebol. Também se verificam muitas piadas que acentuam situações cômicas do período de Lula na prisão, mas, novamente, sem demarcações de posição política pelos piadistas.

Mapa de interações sobre o decreto de prisão de Lula
Período de análise: 10h de 5 de abril até 10h de 6 de abril | Fonte: Twitter
649.853 retuítes


Expediente

Coordenação
Marco Aurelio Ruediger

Pesquisadores
Tatiana Terra
Lucas Calil
Danilo Carvalho
Polyanna Barboza


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