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Greve dos Caminhoneiros soma 3,4 milhões de menções no Twitter, mostra análise da FGV DAPP

Apenas Lula e a morte de Marielle tiveram impacto nas redes sociais da mesma dimensão, neste ano

há 3 semanas

O debate sobre a greve dos caminhoneiros e suas consequências já mobilizou 3,4 milhões de menções no Twitter entre domingo (20) e as 15h desta sexta-feira (25). A repercussão do assunto põe a questão dos combustíveis como um dos principais eventos políticos do país, nas redes sociais, com volume bastante superior ao de protestos de alcance nacional, como a greve geral de 2017 (1,1 milhão de menções). Este ano, apenas Lula e a morte de Marielle Franco tiveram impacto nas redes sociais da mesma dimensão.

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A eclosão do movimento desatou uma onda de insatisfações, que vai da esquerda à direita, e remete ao cenário de 2013, quando uma pauta específica adquiriu maciça abrangência discursiva (o reajuste de tarifas no transporte público)  e se transformou em movimento nacional, trazendo à tona diversos pontos de crítica dos brasileiros.

A discussão sobre a greve ocorre em grupos fragmentados na rede, sem consenso sobre suas causas e consequências. No entanto, o discurso majoritário entre os grupos é em defesa da paralisação. Os grupos tradicionalmente alinhados à esquerda e à direita no debate político consideram válidas as queixas dos grevistas e pouco reclamam sobre os efeitos colaterais, ocupando pouco menos de 25% do grafo das interações. As demais não apresentam alinhamento político claro. No grupo alinhado à direita, 4,28% das interações são provenientes de robôs; no grupo à esquerda foram 3,02%.

O maior grupo do grafo (verde), com 17,19%, declara apoio aos grevistas, enaltece o “poder” dos caminhoneiros em conseguir parar o Brasil e não se alinha a nenhum ator político, fazendo críticas gerais a serviços caros do país, à falta de segurança pública e às instituições. O grupo em amarelo (8,63%) apresenta teor semelhante.

A direita, que apresenta maior apoio declarado à greve, se dividiu entre dois núcleos: um, em azul-claro, com 11,02% dos perfis, congrega influenciadores regularmente identificados no debate público do Twitter e concentra críticas, mais do que em Temer, nos governos petistas. Também justificam a defesa da manifestação dos caminhoneiros, apesar de questionarem outros protestos, sob o argumento de que as agendas dos grevistas são legítimas e estes são “trabalhadores”, ao contrário de “manifestantes de esquerda” mobilizados por sindicatos. O deputado federal Jair Bolsonaro, único ator político que conseguiu congregar certa relevância no debate, afora Michel Temer, se encontra no núcleo em rosa (6,11%), com perfis favoráveis à greve e que comemoram o impacto expressivo em todos os setores e lugares do país, elogiando a importância de um “despertar” do povo em grande escala​.

Bem menor que a direita, a esquerda se encontra no grupo em vermelho, com 7,43% do grafo. Nesse núcleo estão Lula, Manuela D’Avila, Guilherme Boulos e Ciro Gomes, que destinaram atenção à questão dos preços e do prejuízo a caminhoneiros e consumidores, reconhecendo os combustíveis como síntese dos erros gerais da política econômica de Temer​.

Por fim, outros dois grupos, em azul escuro (8,98%) e laranja (9,76%), são marcadamente menos partidários e mais devotados a ironizar o aumento da gasolina, os impactos no país e, a partir das piadas, estabelecer paralelos e críticas gerais ao Brasil.

Até quarta-feira (23), a discussão sobre a greve manteve teor mais político, em que os diferentes grupos debatiam questões variadas da economia a partir da gasolina, como a intervenção do Estado nas estatais, a privatização, a inflação, o câmbio e o desemprego, com argumentos e rebatidas de vários lados. A partir desta quarta, quando o debate de fato se acelera bastante, a resposta (e a falta de) do governo Temer ao movimento adquire protagonismo, assim como os impactos diretos na vida das pessoas e a percepção de que o Brasil se encontra muito fragilizado e sujeito a crises, dada a dimensão alcançada pela greve.