Ferramentas DAPP

Linchamentos e o “caráter nacional brasileiro”

No início da semana passada, a primeira de julho de 2015, mais um linchamento chocou o país. Após tentativa de assalto em um bar em São Luís (MA), um homem acabou amarrado a um poste e foi espancado até a morte. Três dias após esse bárbaro evento, outros três casos ocorreram no Rio de Janeiro […]

há 2 anos

No início da semana passada, a primeira de julho de 2015, mais um linchamento chocou o país. Após tentativa de assalto em um bar em São Luís (MA), um homem acabou amarrado a um poste e foi espancado até a morte. Três dias após esse bárbaro evento, outros três casos ocorreram no Rio de Janeiro e no Maranhão, segundo matéria da revista Exame. Mas não apenas isso: de acordo com pesquisa do sociólogo José de Souza Martins, citada no referido artigo, há ao menos um caso de justiçamento no país por dia: “[o Brasil] é o único país em que essas ocorrências não são surtos, mas uma ação contínua de turbas que se organizam com facilidade cada vez maior”, afirmou.Brazil_23

O ocorrido revela que, apesar de nossa autoimagem de povo pacífico, receptivo e festeiro, somos também capazes de atos de extrema violência. Essa dimensão do, por assim dizer, “caráter nacional brasileiro” tem sido sistematicamente negada, seja pela ideologia dominante, seja pelo próprio povo que prefere se representar através de caraterísticas positivas, como a hospitalidade, a camaradagem e a alegria.

Somos um país “abençoado por Deus e bonito por natureza”, onde não ocorrem os grandes cataclismos que assolam alhures. Já na Carta de Caminha está esboçado o que seria, depois, assimilado como representação social: uma terra “graciosa” de “bons ares frescos”, onde “dar-se-há nela tudo”. Roberto Pereira vê nesse primeiro olhar sobre o Brasil, que focaliza sua exuberante natureza, figurando-a como a terra da promissão, o fundamento da teoria da cordialidade que constitui um dos traços da construção do nosso caráter nacional.

Os conflitos sociais que marcaram a história nacional sempre foram minimizados pelos livros didáticos e pelo discurso oficial. Canudos, Farrapos e Cabanagem são considerados episódios localizados de pequenos grupos revoltosos. Sem dúvida, o Brasil não passou por grandes rupturas em sua transição para a Modernidade, como ocorreu com os países da Europa e com os Estados Unidos, e esse fato tem sido usado como exemplo de nossa índole pacífica. Temos dificuldade de reconhecer nosso racismo, nos agarrando ainda à ilusão da democracia racial. Ignoramos que a colonização portuguesa e a expansão de nosso território – as Bandeiras – ocorreram sobre sangue indígena. Preferimos cultivar a imagem de povo cordial.

Foi no clássico “Raízes do Brasil” que Sergio Buarque de Holanda cunhou o conceito de cordialidade como herança de nosso passado colonial. Etimologicamente, cordial se origina do latin cor, cordis, ou seja, referente ao coração. Gerado no seio do patriarcalismo, o homem cordial age antes com o coração do que com a razão, sendo muito afável, doce e hospitaleiro, mas ao mesmo tempo muito violento.

A configuração da Casa Grande induz relações sociais marcadas pela proximidade e a intimidade e dificuldades de distinção entre os domínios público e privado, ou seja, a esfera doméstica impõe a lógica afetiva à esfera pública. A proximidade aliada à hierarquização, traço que Roberto DaMatta ressalta em seus estudos sobre o Brasil, camufla a irredutibilidade das distâncias sociais e a nossa estrutural desigualdade, porque há infinitas mediações. A lógica do sistema permite a intimidade entre superiores e inferiores, entre senhores e escravos, porque tudo está em seu devido lugar e “cada um sabe qual é o seu lugar“.

Gilberto Freyre em Casa Grande & Senzala afirma que as amas negras amaciaram a língua portuguesa, amenizando as formas imperativas. O me dá, no lugar do dá-me. Preferimos os eufemismos, os diminuitivos, falamos por circunlóquios e nunca o que realmente pensamos, pois seria grosseiro. Melhor uma mentirinha do que agredir com a verdade. Aprendemos a ser maleáveis, ter jogo de cintura, a evitar as situações constrangedoras. De fato, temos horror ao confronto. Sabemos que quem fala o que quer, ouve o que não quer.

O linchamento de Cledenilson nos diz muito sobre esse lado obscuro de nossa cordialidade, que se manifesta cotidianamente na primeira fechada que levamos no trânsito, na disputa por um lugar na fila de banco, na violência doméstica ou mais recentemente nas demonstrações de ódio nas redes sociais.


Veja mais sobre: ,