Ferramentas DAPP

No Twitter, protestos na França remetem ao Brasil de 2013, sem articulação de partidos e com pauta geral de insatisfação política

Mais de 50% dos perfis que discutem em francês sobre os “coletes amarelos” questionam legitimidade dos protestos e atribuem visão xenofóbica e nacionalista aos manifestantes

há 2 semanas

Apresentando configuração bastante parecida com a das “Jornadas de junho” de 2013 no Brasil, o movimento dos gilets jaunes que eclodiu na França ao longo das duas últimas semanas rapidamente se converteu em eixo central do debate político no país. Com organização não partidária, feita pelas redes sociais, o movimento agrega diferentes pautas, a partir da insatisfação com o preço dos combustíveis, e aglutina cidadãos de ambos os extremos do espectro político. No Twitter, desde 17 de novembro, quando houve a primeira grande mobilização nas ruas francesas, a discussão se revela bastante fragmentada, com muitos discursos e opiniões em confronto por espaço na rede e notáveis ausências: os dois partidos mais tradicionais da França, os socialistas e os republicanos, não integram nenhum dos seis principais grupos — e já são mais de 7 milhões de tuítes sobre os gilets jaunes no período.

Identificados pelos coletes amarelos, usados para garantir visibilidade e proteção em diferentes situações cotidianas (por ciclistas e guardas de trânsito, por exemplo), os manifestantes espalharam-se pelo país em conjunto de protestos que levou a bloqueios em estradas e ruas, passeatas e confrontos com a polícia. Quanto à baixa representatividade dos partidos políticos e à descentralização das pautas, os gilets jaunes (a expressão em francês para coletes amarelos) ecoam o Brasil de 2013, mas no que diz respeito ao catalisador inicial do movimento remetem a episódio mais recente no país: a greve dos caminhoneiros, em maio de 2018.

Da demanda inicial por redução tarifária para combustíveis, expandiu-se a adesão aos protestos a grupos insatisfeitos com o governo do presidente Emmanuel Macron e à consternação com a perda de poder aquisitivo por setores da sociedade francesa. Com a baixa presença de partidos e lideranças políticas tradicionais na condução do movimento, também se expandiu aos dois extremos do espectro político o apoio aos gilets jaunes, conforme identificado no mapa de interações abaixo, que mostra os principais núcleos de discussão sobre as manifestações na França entre 17 e 26 de novembro.

Vem sendo expressivo o engajamento no país sobre os gilets jaunes: de 0h de 17 de novembro às 12h desta segunda-feira (26), houve 6,9 milhões de tuítes em francês identificados — o grafo apresenta recorte amostral de 20% de menções selecionadas aleatoriamente, com 1.381.826 tuítes, dos quais 1.022.630 são retuítes; robôs responderam por 1,7% do total de interações do debate. Entre os grupos e tópicos abordados, chama a atenção o amplo predomínio (quanto ao número de perfis) de um grupo central, em rosa (50,5% dos perfis, 26,4% das interações), e que não apresenta políticos ou partidos entre os principais influenciadores.

Críticas são majoritárias

Formado por perfis de inclinação à esquerda, o grupo questiona a legitimidade dos manifestantes, faz críticas ao endosso de nomes da direita francesa ao movimento e afirma que, para além da insatisfação com o combustível, os gilets jaunes têm visão anti-imigração e nacionalista. Com as notícias de confronto entre policiais e manifestantes e vídeos e imagens de vandalismo em propriedades públicas e privadas, os perfis reiteram, por fim, que o próprio povo é prejudicado porque é quem custeará as obras de reforma que serão feitas.

O grupo de apoio ao presidente Macron, em verde, reúne-se no segundo maior grupo em volume de perfis (9,1%, com 8,9% das interações), embora haja mais veículos de imprensa do que políticos do governo entre os influenciadores de maior impacto no debate do grupo. A partir de condenações institucionais aos atos de violência e aos bloqueios feitos pelos manifestantes, com o compartilhamento de reportagens com testemunhos e fotos de depredação, os perfis do núcleo rejeitam a propagação de notícias falsas e, em lugar de defender Macron, repudiam falas e comportamentos considerados xenofóbicos, racistas e homofóbicos de participantes dos protestos. Também retuítam postagens sobre militantes de extrema-direita, supostamente ligados a Marine Le Pen, do Reagrupamento Nacional (derrotada por Macron no segundo turno em 2017), como responsáveis pelo vandalismo.

Apoio da direita e da esquerda

O grupo de Le Pen e de outros nomes de seu partido, em laranja, foi o terceiro com mais perfis (8,6%), mas ficou pouco atrás do grupo em rosa em volume de interações identificadas, com 24,6% do total do grafo. O tuíte mais compartilhado do núcleo foi da sobrinha de Le Pen, a ex-deputada Marion Maréchal, também integrante do Reagrupamento Nacional (que até recentemente se chamava Frente Nacional), questionando a repressão feita pelo governo Macron, as críticas de perfis e da imprensa ao movimento e as acusações de preconceito direcionadas aos gilets jaunes.

O principal nome citado pelo grupo é o do ministro do Interior, Christophe Castaner, que havia atribuído a Le Pen a atuação de vândalos. Perfis de pessoas que aderiram aos protestos e participam do debate pedem a destituição do presidente e também de Castaner, sob a crítica de que governam apenas para ricos e membros da elite cultural do país. Quanto à imprensa, são compartilhados links de veículos da mídia tradicional, com acusações de manipulação e notícias falsas ao descrever as causas e resultados dos atos públicos.

Do outro lado do espectro político, entre perfis alinhados ao partido França Insubmissa, à esquerda de Macron, também se identifica maciço apoio aos gilets jaunes, embora com distinta abordagem temática sobre as questões levantadas pelo movimento. Com Jean-Luc Mélenchon, candidato à Presidência em 2017 (obteve 19,6% dos votos, ficando em quarto lugar), como principal influenciador, o grupo em azul-claro agrega 8,1% dos perfis e 11,8% das interações e destaca sobretudo aspectos econômicos da gestão de Macron.

Os perfis do grupo contestam reformas fiscais, argumentam que os serviços públicos na França estão em queda de qualidade e que a desigualdade social aumentou no país — e que, por isso, é legítima a agenda dos manifestantes. A pauta principal gira em torno da questão tributária, com tuítes que relatam privilégios para grandes empresas e investidores e criticam diretamente Macron e membros do governo; reiteram que os gilets jaunes não são majoritariamente compostos de pessoas da extrema-direita e congregam militantes de esquerda. Contestam a imprensa e as informações estatais de que houve vandalismo nos protestos e dão relatos de que grupos de direitos de minorias e com agendas feministas e pró-LGBT foram acolhidos pelos gilets jaunes em diferentes cidades da França.

Mídia e memes sobre os gilets jaunes

Outros dois grupos menores também participam de forma relevante do debate: em marrom-escuro — representando 3,19% de interações e 5% dos perfis —, é formado essencialmente por veículos de mídia, que difundem informações sobre os protestos, como os canais televisivos CNews e BFM TV, o jornal Le Parisien e outros de cidades menores, como o ML Montpellier. A falta de unicidade das pautas engajadas pelos gilets jaunes e a heterogeneidade entre os manifestantes também aparecem como críticas.

Em marrom-claro, com 3,8% dos perfis e 1,6% das interações, localiza-se pequeno grupo que, em forte articulação com o grupo rosa (o maior em número de perfis), também se opõe aos gilets jaunes, fazendo uso de piadas, memes e sátiras para contestar os motivos e estratégias do movimento. Questionam as táticas de confronto com a polícia, a destruição de bens públicos e privados e afirmam que em bloqueios cidadãos foram impedidos de se locomover, ofendidos como “não franceses” por não aderirem às manifestações. Também, assim como o grupo rosa, dizem que muitas agendas dos gilets jaunes têm mote preconceituoso.

Conforme já destacado, em nenhum dos seis grupos analisados houve notável presença de perfis ou influenciadores dos dois partidos mais tradicionais da política francesa, os socialistas — do ex-presidente François Hollande — e os republicanos, do também ex-presidente Nicolas Sarkozy. Em 2017, nas eleições nacionais de substituição do mandado de Hollande, o candidato socialista Benoit Hamon obteve 6,4% dos votos (ficou em quinto), enquanto o republicano François Fillon ficou em terceiro (20%), por pouco superado por Marine Le Pen, que foi por fim ao segundo turno contra o presidente Macron.


Veja mais sobre: , ,