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Novas tecnologias e políticas públicas: Foldscope, o microscópio de origami

Resistente, leve, de baixo custo e uso simples, instrumento se coloca como alternativa para diagnóstico de doenças em localidades remotas e de baixa renda

há 2 meses por Carolina Taboada

Foldscope é testado com auxílio de um smartphone – IndiaBioscience (Índia, 2015)

Um problema frequentemente encontrado nos países de renda mais baixa, com alta incidência de doenças tropicais, é a demora — muitas vezes de meses — por diagnósticos que podem ser obtidos através de rápida análise microscópica. Pesquisadores estimam que, anualmente, 1 bilhão de pessoas necessite desse tipo de análise para identificar enfermidades. Mas, apesar da grande demanda, microscópios pouco evoluíram nos últimos 70 anos e continuam sendo instrumentos caros, frágeis, volumosos, de difícil manutenção e uso complexo, o que torna desafiadora sua utilização em muitas localidades.

Foi deste cenário que surgiu o Foldscope, um microscópio com todas as funcionalidades de um aparelho convencional — fluorescência, campo claro, polarização e projeção —, mas construído apenas a partir de uma dobradura de papel. A iniciativa mistura princípios de design óptico com origami: com uma única folha, tem-se as ferramentas necessárias para construir um tipo de funcionalidade do microscópio, inclusive microlentes.

Modelos do Foldscope na fase de montagem – IndiaBioscience (Índia, 2015)

Cada Foldscope pode ser montado apenas através do código de cores da folha papel, dispensando a necessidade de instruções escritas e tornando-se acessível a leigos. Uma vez construído, o aparelho funciona como se fosse um microscópio desenhado especificamente para o diagnóstico de uma doença. Existem, atualmente, mais de 30 modelos, cada um com uma funcionalidade. Um deles, por exemplo, foi desenhado para identificar a malária, trazendo embutido em si os filtros de fluorescência necessários para identificar a doença infecciosa.

Uma única folha de Foldscope, portanto, não cobre todas as funcionalidades de um microscópio convencional. Mas devido ao baixo volume, vários modelos podem ser transportados ao mesmo tempo, de maneira prática.

 

Outra vantagem do aparelho é a sua alta durabilidade e resistência a choques, acidentes e contato com água, além, é claro, do valor: cada Foldscope é vendido por aproximadamente US$ 1, enquanto microscópios tradicionais mais simples custam em torno de R$ 200. Nesse quesito de baixo custo, o aparelho torna-se potencialmente interessante como um microscópio descartável para o diagnóstico de doenças altamente infecciosas, como o Ebola: após um teste, o Foldscope poderia ser imediatamente colocado junto ao lixo hospitalar para ser incinerado, reduzindo as chances de contágio.

Há ainda estudos de uso do instrumento para outras oportunidades, dado ao seu formato 2D, como a inclusão de imãs para permitir o alinhamento com smartphones. Assim, ele poderia ser usado para captura de imagens e geração de diagnósticos transmitidos via telefonia.

Mas para além das possibilidades de uso no diagnóstico de doenças, o Foldscope também tem despertado interesse como uma excelente ferramenta para a educação, tornando o ensino mais prático e interessante seja nas escolas ou em casa. Por um pequeno custo, possibilita-se a aproximação com princípios da ciência e, potencialmente, descobertas “acidentais” tão comuns no campo da astronomia.

Despertar o interesse na ciência é fundamental para o desenvolvimento da área e de seu ensino nas escolas: em dois dos últimos três anos a área de conhecimento “ciências da natureza” foi a que obteve a menor média no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) — apenas em 2015 a disciplina não ficou na lanterna da prova, amargando um inexpressivo penúltimo lugar.