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O depoimento de Lula a Moro: análise de redes sociais mostra ascensão de grupo avesso à polarização

Grupo formado por não alinhados respondeu por um terço das menções (32,3%). Perfis de oposição a Lula responderam por 20,7%; os de apoio, por 19,2%

há 2 semanas

O Depoimento de Lula

•Polarização segue dominando as redes sociais, mas não é mais a única expressão relevante no Twitter e no Facebook;

•Embora menos organizada do que os grupos contra e a favor do ex-presidente Lula, terceiro campo político revela uma tentativa de avaliação equidistante do depoimento;

Apresentado nas redes sociais como a luta do século, o embate entre os admiradores e detratores do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do juiz Sérgio Moro fez surgir a maior novidade da internet brasileira dos últimos tempos, a terceira força. Levantamento feito pela FGV DAPP ao longo de 24 horas antes e depois do depoimento do ex-presidente Lula ao juiz Moro mostra que a polarização segue dominando as redes sociais, mas não é mais a única expressão relevante no Twitter e no Facebook. Embora menos organizada do que os grupos contra e a favor do ex-presidente Lula, este terceiro campo político revela uma tentativa de avaliação equidistante do depoimento do ex-presidente, muitas vezes criticando os dois protagonistas e o tom de guerra dos militantes partidários — e por vezes em tom satírico.

Um segundo dado reforça a interpretação da FGV DAPP de que existe uma terceira força na internet, não vinculada nem aos partidários de Lula (que para efeito didático batizamos de “Vermelhos”), nem aos grupos que promoveram o impeachment e defendem ardorosamente a Operação Lava Jato (que denominamos “Azuis”). O depoimento de Lula recebeu 650 mil menções no Twitter, volume expressivo, mas inferior ao 1,5 milhão mobilizados em torno da greve geral contra as reformas na Previdência e nas leis trabalhistas. Isso pode demonstrar que, embora Lula e Moro sejam catalisadores das posições políticas de milhares de brasileiros, não são os únicos. Questões como os direitos previdenciários (no caso do dia da greve geral) e da avaliação desapaixonada tanto de Lula como da Lava Jato também são temas mobilizadores. Além dos Azuis e dos Vermelhos, as redes sociais têm espaço para os “Verdes”, como chamamos esse terceiro grupo.

Mas, para além do debate em torno das personalidades envolvidas, o que a análise de redes sociais do evento político-jurídico da última quarta-feira (10/05) evidencia é também um certo reequilíbrio das forças organizadas nos dois principais campos políticos observados nas redes. Essa situação, observada no DAPP Report da greve geral do dia 28, contrasta com o cenário verificado entre o período pós-eleitoral de 2014 e o impeachment da presidente Dilma Rousseff, há 1 ano, quando o campo de oposição ao impedimento se mostrava na defensiva — e aquele favorável, em posição majoritária. Esse novo equilíbrio de forças, que tende a se manifestar novamente nas próximas semanas e meses (sem prejuízo de haver potencialmente outros campos menos coesos se formando, com o grupo verde), deve perpetuar a polarização e radicalidade do debate, podendo se aglutinar, como tem ocorrido, em torno de pautas reformistas (previdenciária e trabalhista) do Governo Michel Temer e de embates em torno dos rumos da Lava Jato, como tem ocorrido recentemente. O episódio também reforçou a personificação de Moro como a figura mais importante de oposição a Lula neste contexto — no universo das redes sociais, vale reforçar.

>>> Baixe a íntegra do relatório em PDF

Uma maioria não alinhada

Conforme apontado acima, o debate em torno do depoimento no Twitter reforçou a polarização política cristalizada nos últimos anos, mas também a forte presença de uma maioria não alinhada (grupo verde), formada por perfis não necessariamente de um mesmo campo político, mas que têm em comum o fato de não se aliarem — nas redes — aos discursos mais claramente pró e contra Lula. Já os perfis alinhados mais claramente a um campo ou outro quase não possuem ligações entre si, o que significa escassa (para não dizer nenhuma) mediação entre eles. O grupo formado pelos não alinhados respondeu, no período analisado, por cerca de um terço das menções (32,3%). Os perfis de oposição a Lula responderam por 20,7% das interações; enquanto os de apoio, por cerca de 19,2%. Os demais 28% são formados por grupos menores e fragmentados da rede.

Mapa de Interações no Twitter (665 mil tuítes – 0h a 24h do dia 10/05)

Influenciadores por Cluster


Distribuição geográfica

A análise geográfica do debate no Twitter sobre o depoimento — a partir do volume de menções ponderado pela população de cada Estado — mostra um debate distribuído pelo país, mas com algumas diferenças entre cada cluster.

Menções por Estado no Twitter (grupo verde – não alinhado)

Menções por Estado no Twitter (grupo azul – pró-Lava-Jato)

Menções por Estado no Twitter (grupo vermelho – pró-Lula)

Distribuição etária

Já no plano da distribuição por faixa etária, em relação às referências a Lula, constata-se amplo predomínio no debate de perfis acima dos 34 anos, em contraste com a distribuição etária dos usuários de Facebook no Brasil, em que jovens até essa idade são maioria. Tal tendência é vista, inclusive, em outras discussões sobre temas de política e economia, por exemplo, com os mais jovens em menor engajamento e participação. E, tanto em apoio a Lula quanto em apoio à Lava Jato, há predomínio de perfis acima dos 34 anos — conforme os gráficos abaixo.

No entanto, ao olharmos para a distribuição etária, podemos notar que 58,3% do grupo a favor de Lula no Facebook tem 45 anos ou mais. Os usuários dessa faixa etária do grupo contra Lula, por sua vez, representam apenas 45,5% da amostra. O grupo de apoio à Lava Jato encontra uma maior proporção de usuários a partir dos 35 anos. Este é, pois, um fato digno de nota, pois indica a existência de uma parcela de usuários que parece não ter encontrado, na polarização verificada, posições que representam seus valores. Se, por um lado, essa parcela não encontra um movimento, uma liderança ou mesmo uma agenda única em torno da qual se aglutinar, por outro, verifica-se haver um espaço a ser ocupado no debate-disputa que se desenrolará nos próximos meses, podendo conciliar parte das agendas de ambos os polos — combate à corrupção e oposição a reformas, por exemplo.

Conclusão

Há, portanto, alguns pontos que merecem ser observados:

•A análise sugere que, no debate visando o cenário de 2018, há um importante — e talvez crescente — campo que se mostra cansado da polarização tradicional;

•Em termos de agenda pública, esse campo político (ainda que não organizado) tende a abrir espaço para uma agenda que concilie pautas dos campos tradicionais, mas vá além;

•O fator etário deve ser, nesse sentido, um fator importante, com a juventude adquirindo protagonismo na eventual viabilização de uma alternativa política;

•É, portanto, um movimento que tende a buscar a superação da dicotomia cristalizada nos últimos anos, mobilizando uma pauta de melhoria do sistema política como um todo e de geração de novas oportunidades.


FGV/DAPP

Diretor

Marco Aurelio Ruediger

Equipe

Thomas Traumann
Amaro Grassi
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Humberto Ferreira
Lucas Calil
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