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Pesquisa sobre mercado formal de trabalho indica subaproveitamento de mão de obra estrangeira qualificada

Levantamento realizado pela FGV/DAPP mostra que uma parcela considerável dos novos fluxos migratórios para o Brasil está associada a trabalhos em postos não compatíveis com os níveis de escolaridade dos imigrantes. Esse fenômeno não é uma regra geral (analisando a totalidade dos imigrantes) mas é bastante evidente, por exemplo, entre os haitianos. O infográfico abaixo […]

há 1 ano por Wagner Oliveira, Bárbara Barbosa

Levantamento realizado pela FGV/DAPP mostra que uma parcela considerável dos novos fluxos migratórios para o Brasil está associada a trabalhos em postos não compatíveis com os níveis de escolaridade dos imigrantes. Esse fenômeno não é uma regra geral (analisando a totalidade dos imigrantes) mas é bastante evidente, por exemplo, entre os haitianos.

O infográfico abaixo apresenta a distribuição desses estrangeiros de acordo com o nível de escolaridade exigido em suas ocupações. A grande maioria (71,7%) está de fato exercendo profissões que exigem o ensino superior, além de 9,8% em profissões de exigência técnica. Os profissionais em ocupações “sem exigência” (2,9%) são, sobretudo, instrutores de cursos livres, ministrantes de cultos religiosos e profissionais relacionados às artes que, segundo a definição da Classificação Brasileira de Ocupações, não apresentam exigências específicas de escolaridade. Existem ainda 0,2% de pessoas com ensino superior em ocupações que, usualmente, exigem pós-graduação, como é o caso de professores de física e química.

Sendo assim, a estimativa mais próxima do fenômeno da “inconsistência de status” seria para aqueles que ocupam postos que exigem ensino fundamental ou médio, o que totaliza, para o universo dos estrangeiros, 15,4%.

Por outro lado, analisando o caso específico dos haitianos, que representam grande parte dos novos fluxos migratórios brasileiros, pode-se perceber um cenário diferente. Em 2014, na RAIS, é possível encontrar 30.457 registros de haitianos com vínculos formais de trabalho, sendo que 440 (1,4%) possuem curso superior. Mesmo sendo uma pequena parcela, trata-se de um contingente razoável de imigrantes que possuem superior completo, mas que não conseguem se integrar adequadamente no mercado de trabalho, como mostra o infográfico. Apenas 3,4% trabalhavam em 2014 em ocupações que de fato exigem tal nível de escolaridade, enquanto que 81,8% ocupavam postos que exigiam fundamental ou médio. 13,4% ocupavam postos com exigência técnica.

Em resumo, o diagnóstico de inconsistência de status existe, mas não é altamente significativo na totalidade dos imigrantes. No entanto, ao observar o universo dos haitianos, percebe-se que o fenômeno é de fato muito relevante, mesmo restrito a um número reduzido de pessoas se comparado com o total do fluxo de imigrantes.

As razões que levam à falta de integração adequada dessas pessoas no mercado de trabalho brasileiro são inúmeras. Além de recém-chegados ao território brasileiro, os haitianos encontram dificuldades relacionadas à língua, aos processos de regularização da atividade de trabalho do imigrante (obstaculizados, por exemplo, pela dificuldade em revalidar diplomas) e mesmo às condições econômicas domésticas, que sinalizam para uma crescente dificuldade em absorver pessoas, dado o aumento da taxa de desemprego.

Metodologia

Os dados utilizados são provenientes da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) do Ministério do Trabalho e Previdência Social (MTPS) de 2014, última versão divulgada. As informações são relativas aos estrangeiros com vínculos formais de trabalho no Brasil, cujo total de registros para este ano é de 155.982. A análise foi realizada apenas para os que possuíam ensino superior completo, totalizando 48.199 estrangeiros. Os haitianos com ensino superior totalizam 440 registros.

A atribuição de níveis de exigência para as famílias de ocupação da CBO 2002 (Classificação Brasileira de Ocupações), encontradas nos registros da RAIS, foi realizada a partir do campo “formação/experiência” obtido no site do MTPS. No entanto, vale ressaltar que esses níveis de exigência são baseados na observação geral do que ocorre no mercado de trabalho, podendo variar de acordo com a ocupação. A FGV/DAPP gerou uma metodologia para classificação de cada família de ocupação segundo esses critérios, analisando caso a caso a partir da frequência de ocupações na própria RAIS.


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