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Proporção de imigrantes no território influenciou voto pelo Brexit

Quais os possíveis impactos de uma eventual saída dos imigrantes?

há 11 meses por Wagner Oliveira, Janaina de Mendonça Fernandes, Bárbara Barbosa

Existem diversas motivações por trás dos votos que decidiram pela saída do Reino Unido da União Europeia, revelando uma profunda divisão de interesses nas suas diferentes regiões. Se a divisão geográfica já é evidente – com uma Escócia votando majoritariamente pela permanência, junto com a Irlanda do Norte e a região de Londres -, a mídia internacional identificou diversos outros fatores que correlacionam com os votos, com destaque para o grau de escolaridade e a faixa etária. Segundo o site de pesquisa you.gov, pessoas com menos de 25 anos de idade tinham 32% de chance de votar pela saída do Reino Unido, enquanto que aquelas com mais de 65 anos tinham 64%. Por sua vez, o grau de escolaridade tem uma relação direta com o voto para permanência, sendo que 68% dos eleitores com diploma universitário votaram “Remain”, enquanto que apenas 30% dos eleitores com ensino médio completo votaram pela permanência.

De todos os fatores, um em particular chama atenção: o impacto da visão negativa da imigração no voto “Leave”, fenômeno já revelado por outras análises, como por exemplo a do Telegraph. De fato, segundo estatísticas oficiais britânicas (ONS, 2016a), o fluxo imigratório anual para o Reino Unido cresceu 16,7% de 2006 a 2015, mas considerando-se apenas os fluxos provenientes da UE, o aumento foi de 74,3%. Em 2006, os europeus correspondiam a 32% dos imigrantes, proporção que passou a 48% em 2015.

A FGV/DAPP buscou analisar mais de perto a relação entre a presença de imigrantes e o voto pela saída da União Europeia. O mapa abaixo apresenta, do lado esquerdo, a proporção de votos pró-Brexit por área, enquanto que o lado direito apresenta informações sobre 1) a proporção de imigrantes em cada área por 1.000 habitantes, 2) o crescimento dessa proporção entre 2010 e 2014, e 3) uma estimativa* para a taxa de desemprego de cada área, em maio de 2016.

O mapa mostra que as áreas com menor concentração de imigrantes tiveram uma tendência pelo voto “Leave”, conclusão que parece contra-intuitiva, pois espera-se que a preocupação com a presença de imigrantes vivenciada na realidade poderia ter incentivado o voto. No entanto, ao isolar apenas o quartil** das áreas com maior crescimento da proporção de imigrantes entre 2010 e 2014, há uma predominância do voto Leave: 76,3% das áreas desse quartil opinaram a favor da saída. Algo parecido acontece com o quartil das áreas com maior desemprego, no qual 67,6% delas votaram pelo Brexit . Estes dados indicam que a presença recente de imigrantes associada ao baixo dinamismo do mercado de trabalho pode ter contribuído para a posição favorável à saída da UE.

Verificando mais de perto essa questão, percebe-se que há, de fato, uma relação inversa entre a proporção de imigrantes por área e a proporção de voto pela saída. Ou seja, áreas com maior proporção de imigrantes tiveram resultados mais favoráveis à permanência na UE. O gráfico abaixo ilustra a relação, mostrando uma maior concentração das localidades pró “Remain” em áreas com menos imigrantes. O coeficiente de correlação entre as duas variáveis é de 43%.

Fonte: UK Electoral Commission (2016) e ONS (2016a). Elaboração: FGV/DAPP (dapp.fgv.br).

Possíveis explicações

A partir desses dados, pode-se inferir algumas hipóteses para justificar tal resultado. Uma delas é que a proximidade física com populações migrantes em grandes centros urbanos, como ocorre em Londres, torna os britânicos menos permeáveis aos discursos que tendem a identificar o imigrante de forma genérica, como um “outro problemático”. Pesquisa de opinião realizada pelo British Social Attitudes Survey em 2013 (BSA), identificou uma forte correlação entre residir em Londres e ter amizade com imigrantes com a percepção de um impacto positivo da imigração (MIGRATION OBSERVATORY, 2016a).

Outra hipótese se refere ao fato de que existe um círculo virtuoso de formação de redes de imigrantes em localidades que votaram Remain, onde possivelmente existem filhos de imigrantes que naturalmente votariam a favor da continuidade na UE. Esses centros tendem a continuar atraindo imigrantes, reforçando sua presença no território.

O estado da imigração no Reino Unido

A imigração é um tema presente na agenda política britânica em decorrência, principalmente, de um aumento do fluxo migratório nas últimas décadas. No ano 2000, o Reino Unido possuía cerca de 1,5 milhões de cidadãos europeus vivendo em seu território, enquanto que em 2015 esse montante subiu para 2,9 milhões. O indicador de “migração líquida” de europeus – ou seja, a subtração do total de europeus vivendo no Reino Unido pelo total dos seus cidadãos vivendo em outros países da europa – indica um aumento de 116% no período de quinze anos.

O fluxo de poloneses é o principal fator que explica esse crescimento. Em 2000, haviam pouco mais de 59 mil cidadãos da Polônia no Reino Unido, enquanto que em 2015 são registrados mais de 700 mil. O crescimento líquido no período foi superior a 10 vezes, passando a ser a principal nacionalidade de estrangeiros na região, superando irlandeses e indianos. Esse movimento se deu sobretudo a partir de 2004, quando a Polônia entrou para a União Europeia. Hoje, 15% da população estrangeira no Reino Unido é composta de poloneses, segundo dados da Comissão Europeia.

O gráfico abaixo mostra a quantidade de cidadãos estrangeiros (europeus) no Reino Unido por país de origem em 2000 e 2015.

Logo após o referendo que decidiu pela saída do Reino Unido da UE, ocorreram pelo menos dois atos de xenofobia com relação a poloneses: a Associação Social e Cultural Polonesa, em Londres, amanheceu com suas paredes pichadas a expressão “Go Home” (vá para casa); em Cambridge, foram distribuídos panfletos em frente a uma escola primária com os dizeres: “Saiam da UE! Chega de vermes poloneses!” (G1, 2016).

Possíveis impactos migratórios do Brexit

A saída do Reino Unido da UE pode trazer uma série de consequências do ponto de vista migratório. Sabe-se que a presença de imigrantes de um determinado perfil no mercado de trabalho contribuem para o desenvolvimento econômico e para a sustentabilidade fiscal de um país. Tais benefícios podem superar os “custos” (em termos de benefícios sociais, por exemplo), uma vez que a participação em programas de bem-estar tende a diminuir com o nível de qualificação (MIGRATION OBSERVATORY, 2016).

O perfil da população estrangeira no Reino Unido sugere que essa população traz uma contribuição importante para o país. Alguns fatos corroboram para esse argumento:

Apesar dos efeitos positivos, a preocupação em reduzir a imigração é uma agenda pública antiga no Reino Unido. De acordo com o relatório do The Migration Observatory (2016a), em 1964 mais de 80% dos britânicos considerava que havia muitos imigrantes vivendo na região, e em junho de 2015, 45% dessa população considerava a imigração o principal problema a ser enfrentado pela  Grã Bretanha. Na pesquisa de 2013 do BSA, mais de 50% dos respondentes acreditavam que os migrantes laborais trazem mais custos sociais do que benefícios.

Como cidadãos da União Européia, os poloneses têm acesso aos mesmos direitos sociais que os britânicos. Em um contexto de políticas de austeridade, o debate sobre imigração inclui a questão dos custos sociais desses trabalhadores. Acrescente-se a isso a percepção de que estão usurpando postos de trabalho dos nacionais e  sujeitando-se a baixos salários.

Disputa internacional por talentos

Esse fato novo impõe desafios à política migratória do Reino Unido. Afinal, quais mecanismos serão colocados em prática para reter os talentos que podem, na nova conjuntura, deixar o país? A política migratória britânica já é considerada restritiva quando comparada a de outros países. E ainda assim, durante a campanha do Brexit, surgiu a proposta de se adotar um sistema de pontos à semelhança do praticado na Austrália – criado, contrariamente, para atrair imigrantes – , porém com o objetivo de restringir a entrada de estrangeiros no país, pela adoção de regras de admissão e seleção mais rígidas. Nesse sentido, o Comitê Consultivo de Migração do Reino Unido alerta que as restrições à concessão de vistos para cidadãos de fora da UE poderiam trazer um “significant risk [of] detrimental impacts on UK productivity, innovation and competitiveness […]”. (MIGRATION OBSERVATORY, 2016 b).

O futuro é incerto para a UE e o Reino Unido, mas pode-se inferir que essas políticas restritivas vão impactar na disponibilidade de talentos disponíveis no mundo, favorecendo o fenômeno da ‘circulação de cérebros’. Considerando que a tecnologia é um recurso crucial para o desenvolvimento dos países, que atuam estrategicamente numa disputa internacional por talentos, há uma tendência à migração de pessoas qualificadas exatamente para os países com maiores dispositivos de atração e menores barreiras.

Como o Brasil pode atuar nesse contexto?

De acordo com dados da população de imigrantes da ONU, no Brasil, de 2000 à 2015, o crescimento de estrangeiros em território nacional subiu 4,2%, uma realidade muito diferente do que ocorre no Reino Unido, que teve um aumento de 80,6% de imigrantes para o mesmo período. Quando olhamos exclusivamente para os imigrantes de países membros da União Europeia, incluindo o Reino Unido, o Brasil teve uma queda de 17,7% de imigrantes no período citado (UN POPULATION DIVISION, 2016).

A escolha da saída da UE, pode reforçar uma oportunidade de atuação política e estratégica por parte do Brasil em uma área que os números observados indicam uma falta de protagonismo: a atração de imigrantes em geral, especialmente visando à contribuição que eles podem trazer para o desenvolvimento tecnológico do país e para sua sustentabilidade demográfica. O recrudescimento de políticas anti-imigração por parte do Reino Unido abre espaço para que o Brasil realize políticas de atração de imigrantes que podem contribuir de maneira positiva para o desenvolvimento do país, participando ativamente da disputa internacional por talentos.

Notas

*a estimativa utilizada para a população desempregada é o chamado “claimant count”, que representa o número de pessoas que requisitaram ajuda do governo a título de seguro desemprego (Jobseeker’s Allowance) mais o número de pessoas sem trabalho que requisitaram o benefício social do governo (Universal Credit). A taxa de desemprego é estimada a partir do percentual desse conjunto de pessoas sobre a população de 16 a 64 anos (idade ativa), segundo estimativas populacionais de 2014.

**Quartis são valores que dividem uma distribuição de dados em quatro partes iguais. No caso, o critério de classificação foi a variação de número de imigrantes entre 2010 e 2014. Os quartis são utilizados para avaliar a dispersão de um conjunto de dados. O 1º quartil contém 25% das áreas com as menores variações de número de imigrantes e o 4º quartil contém 25% das áreas com as maiores variações observadas de imigrantes.

Fontes

CNN (2016). The facts about Brexit and immigrationDisponível em: http://money.cnn.com/2016/06/21/news/economy/brexit-eu-referendum-immigration-facts/. Acesso em 30 junho de 2016.

FINANCIAL TIMES – FT (2016). London’s booming fintech market under threat from Brexit vote. Disponível em: https://next.ft.com/content/08c52e4a-3c6d-11e6-9f2c-36b487ebd80a?siteedition=uk#axzz4CzpsFWOx. Acesso em 30 de junho de 2016.

G1 – Portal de notícias da Globo.com (2016). Reino Unido registra episódios de xenofobia pós-Brexit. Disponível em: http://g1.globo.com/mundo/noticia/2016/06/reino-unido-registra-episodios-de-xenofobia-pos-brexit.html. Acesso em 30 junho de 2016.

You Gov (2016). How Britain VotedDisponível em: https://yougov.co.uk/news/2016/06/27/how-britain-voted/. Acesso em 30 de junho de 2016.

Migration Observatory (2016). The Fiscal Impact of Immigration in the UKDisponível em: http://www.migrationobservatory.ox.ac.uk/sites/files/migobs/briefing%20-%20Fiscal%20Impacts_0.pdf. Acesso em 30 junho de 2016.

Migration Observatory (2016 a). UK Public Opinion toward Immigration: Overall Attitudes and Level of Concern. Disponível em: http://www.migrationobservatory.ox.ac.uk/sites/files/migobs/Public%20Opinion-Overall%20Attitudes%20and%20Level%20of%20Concern.pdf. Acesso em 30 junho de 2016.

Migration Observatory (2016 b). What would UK immigration policy look like after Brexit? Disponível aqui. Acesso em 30 junho de 2016.

Office for National Statistics (2016a). Local Area Migration IndicatorsDisponível aqui. Acesso em 29 de junho 2016.

Office for National Statistics (2016b). Claimant Count by unitary and local authority (experimental)Disponível aqui: Acesso em 29 de junho 2016.

Telegraph (2016). EU referendum: How the results compare to the UK’s educated, old and immigrant populationsDisponível em: http://www.telegraph.co.uk/news/2016/06/24/eu-referendum-how-the-results-compare-to-the-uks-educated-old-an/. Acesso em 30 junho de 2016.

UK Electoral Commission (2016). EU Referendum ResultsDisponível aqui: Acesso em 29 de junho 2016.

UN Population Division, Department of Economic and Social Affairs (2016). International Migrant Stock 2015Disponível aqui: Acesso em 29 de junho 2016.


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