Robôs voltam a crescer no debate político com aumento progressivo em grupo de oposição e salto abrupto na base de apoio

Grupo vermelho tem 11,3% de seu debate influenciado por contas automatizadas; grupo azul mais que duplicou o percentual em uma semana, que agora chega a 8,7%

há 6 meses

No retorno da pauta de corrupção ao centro das discussões políticas, também os robôs estão de volta ao debate, na primeira aparição expressiva de atividade automatizada desde o fim da corrida eleitoral. Desde o começo do ano, já estavam subindo, aos poucos, os percentuais de retuítes feitos por robôs no grupo vermelho, de oposição ao governo e alinhado a partidos de esquerda. Esta semana, no entanto, foi a vez de o grupo azul, da base de apoio ao presidente Jair Bolsonaro, apresentar aumento na presença de interações automatizadas — e um aumento abrupto.

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Nesse núcleo, mais que duplicou o percentual de robôs em relação à semana passada, chegando a 8,7% do total de retuítes. No grupo em vermelho, a presença de robôs ainda é maior, chega a 11,3% das interações (ante 8,3% na semana anterior). Em geral, as publicações com mais retuítes feitos por robôs, de ambos os lados, abordam o noticiário associado a corrupção — com ironias, críticas e publicações de defesa. E não foram de políticos ou celebridades da internet as postagens que sofreram interferência mais forte de atividades de automatização: tanto no grupo azul quanto no vermelho, os tuítes mais compartilhados por robôs foram de intelectuais, analistas políticos e debatedores da internet com posições de direita e esquerda.

Outro movimento recente do debate associado ao governo e que se mostrou nítido esta semana foi a fragmentação das bases de oposição e apoio. Contra Bolsonaro, o grupo vermelho vem perdendo espaço, com o aumento de outros dois grupos. O rosa, de perfis independentes — e o maior do mapa de interações — e não alinhados a partidos de esquerda tem discurso parecido com o dos perfis partidários, mas a partir de influenciadores diferentes e com maior uso do humor. O roxo, de composição temática parecida com a do rosa, tem forte interlocução com perfis da imprensa tradicional para reproduzir comentários críticos ao governo e à família Bolsonaro.

Do outro lado, mantém-se bastante coeso o núcleo de apoio ao presidente quanto à atuação dos principais influenciadores e condução do debate na base em azul, mas com mudanças significativas na hierarquia de influência. Bolsonaro, seus filhos e outros parlamentares do PSL são os que ainda engajam maior volume de retuítes e têm maior relevância na pauta, mas muitos perfis que durante o período eleitoral se destacaram no grupo, sobretudo pela posição antipetista, perderam espaço quando começaram a se manifestar de forma crítica a ações do governo ou com questionamentos sobre a investigação do Coaf.

Outros perfis de oposição à esquerda, ao PT e que apoiam o presidente em ações de segurança pública — como a flexibilização da posse de armas — agora atuam de forma mais organizada no grupo laranja, cujo debate se orienta a partir de notícias, piadas e comentários de igual posição crítica tanto em relação a governos anteriores quanto em relação ao atual. Cobram mudanças de postura, respostas e, inclusive, interagem com influenciadores de outros grupos e que se opõem a Bolsonaro há bastante tempo.

O debate no Twitter na semana

Sob perspectiva temática, reproduz-se atualmente no debate político a força dos dois macrotemas que, junto às agendas identitárias, consistiram nos mais relevantes do cenário eleitoral: corrupção e segurança pública, sendo que o primeiro vem se distanciando dos demais como tema central da pauta nas redes sociais. Os desdobramentos da investigação sobre o assassinato de Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes também posicionaram o contexto das milícias no Rio de Janeiro como tópico relevante tanto para o debate de segurança (cujo elemento central é a posse de armas) quanto para o debate de corrupção, fazendo com que ambos aumentem presença na web em função da mesma discussão.

Já a agenda econômica, que desde o começo do governo tem ampliado o espaço nas redes, mas sem centralizar a pauta até agora, persiste atrelada à Reforma da Previdência, sobretudo pela inclusão de militares e de outras categorias da elite do funcionalismo público na proposta ao Congresso. A ida de Bolsonaro a Davos também suscitou debates menores sobre as próximas ações do ministro Paulo Guedes quanto a facilitar o empreendedorismo no Brasil e em relação às mudanças tributárias e ao corte de gastos da esfera federal. Em Relações Exteriores, a participação brasileira em Davos e a situação política na Venezuela retomam o impacto do tema nas redes.


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