O sentimento diante do trabalho policial é sempre complexo: embora exista a expectativa de que a presença policial seja fonte de proteção, ela oferece uma fonte de risco

 

Sob uma visão histórica sempre existiu a clara dependência dos conceitos de justiça e liberdade da existência de um poder maior, que mediasse e estabelecesse os limites para a convivência entre as pessoas. Coube ao Estado de Direito Constitucional o exercício dessa tarefa, através do monopólio do poder, buscando resguardar a vontade da maioria e preservar os direitos das minorias. Esse entendimento parece claro e cristalino até o momento em que somos, no mundo dos fatos, contidos em nossa vontade.

Partindo desse contexto, pode-se perceber que a atividade da polícia, em tese, está relacionada com a manutenção da lei e da ordem. Contudo, o autor Egnon Bittner em seu livro O Aspecto do Trabalho Policial (2003) chama a atenção para a existência de uma realidade social que interfere diretamente na legitimidade da ação policial. É nessa relação dos membros da corporação policial com a sociedade em que vivem, que se estabelece a imagem da polícia, sua legitimidade para atuar e sua maior ou menor credibilidade. O sentimento diante do contato com o trabalho policial é sempre complexo, pois embora exista a expectativa de que a presença policial seja fonte de proteção, ela também oferece uma fonte de risco. O autor dispõe ainda sobre o temor e a admiração, que se somam ao medo de que os policiais possam não levar uma vida à altura da sua missão, fato esse que não os blindaria diante do mal que procuram combater.

A baixa confiança em relação ao estado e seus representantes no Brasil atinge, naturalmente, a imagem da polícia. O policial é percebido por vezes como salvação necessária, e em outras como mal a ser tolerado, sendo todo esse contexto potencializado pelos altos índices de corrupção evidenciados em nossa sociedade.

É nesse cenário que o policial exerce suas funções desprovido de respaldo e integrando corporações pouco fortalecidas. Não há política de segurança pública que se efetive prescindindo do policial. No fim da linha, ele será o operador de fato da política pública. E é nesse ponto que se faz necessária uma revolução nas áreas de seleção, formação, nas estruturas físicas e tecnológicas das áreas de ensino, bem como nas estruturas de carreiras das polícias no Estado do Rio de Janeiro.

*Os artigos publicados são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões neles emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista da Fundação Getulio Vargas

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Sobre o autor

Marcio Colmerauer
Ex-subsecretário de Estado de Segurança do Rio de Janeiro

Marcio Colmerauer é ex-chefe de Gabinete da Secretaria de Estado de Planejamento e Gestão do Rio de Janeiro, e foi Subsecretário de Estado de Segurança do Rio de Janeiro.