Às vésperas da posse de Bolsonaro, debate na rede retoma polarização

Segurança permanece como principal tema associado a Bolsonaro devido a notícias sobre crimes à repercussão do caso João de Deus

há 7 meses

Às vésperas da posse do presidente eleito Jair Bolsonaro, o debate político retrocedeu à estrutura de quase estrita polarização entre dois grupos divididos pelo apoio ou rejeição a Bolsonaro. Conforme verificado ao longo da disputa eleitoral deste ano, um terceiro grupo, em rosa no mapa de interações, opera como único eixo externo a ambos, sem específica identificação partidária — mas também demonstrando oposição ao presidente eleito. Dessa forma, os dois grupos de menor volume observados recentemente, em laranja (à direita, mas sem se alinhar a Bolsonaro) e amarelo (imprensa e perfis irônicos de jornalismo), perderam representatividade no mapa de interações desta semana.

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Notadamente, o debate ainda se encontra bastante organizado, sob o ponto de vista temático, em torno de eventos específicos da pauta política pré-posse: a decisão do ministro Marco Aurélio Mello, na semana passada, que permitiria a soltura do ex-presidente Lula; as investigações do Coaf sobre o assessor Fabrício Queiroz; o papel da imprensa na cobertura do futuro governo; e, em maior proximidade com o contexto da posse de Bolsonaro, as discussões sobre as futuras relações diplomáticas e comerciais com outros países, a se destacar Cuba, Venezuela, Nicarágua, Estados Unidos e Israel.

De 19 a 25 de dezembro, foram identificados 1.025.096 retuítes sobre o futuro governo, de uma base total de 2.047.117 tuítes, já excluídas postagens suspeitas de atividade automatizada (robôs), que corresponderam a somente 2,5% do total de publicações categorizadas no período. Sendo de 50% a proporção de compartilhamento de tuítes — valor que geralmente oscila entre 65% e 80% do total de postagens na rede social —, viu-se menor impacto de grandes influenciadores que o normalmente observado. Ou seja, foi maior a atividade de perfis comuns na discussão política com a manifestação de posições individuais, e não por intermédio do retuíte de um ator político/cultural/jornalístico de grande expressão.

Dividiu-se de forma equilibrada o percentual de perfis em cada um dos núcleos principais do mapa de interações. O grupo em azul, fortemente mobilizado por perfis da família Bolsonaro, reuniu 27,7% das contas identificadas no debate, menos que os 28,8% de perfis do grupo em vermelho, contrário ao presidente eleito, e os 31,9% de perfis da base em rosa, formada por independentes em oposição a Bolsonaro. No entanto, foi novamente no núcleo em azul que se verificou o maior volume de retuítes, com 47,9%, frente a 36,2% no grupo em vermelho e apenas 13% no grupo rosa — que tem mais perfis participando do debate, mas, sem a mesma organização político-partidária dos outros dois grupos, tem intensidade muito menor de interações com seus principais influenciadores.

Tanto no núcleo em vermelho quanto no grupo em azul os temas convergem, destacados sob posições antagônicas: à direita, há críticas a Marco Aurélio e à até então possível soltura de Lula (o presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, suspendeu a decisão de Marco Aurélio), comentários sobre a cobertura jornalística do caso de Fabrício Queiroz e referências negativas sobre os governos de Cuba, Nicarágua e Venezuela, desconvidados para a posse. Também se debate a investigação sobre o atentado a faca sofrido por Bolsonaro e, nos últimos dias, outra agenda de política pública emergiu: o projeto de dessalinização de água para estados do Nordeste.

Todas essas pautas foram repercutidas ou abordadas no grupo vermelho sob ótica oposta, com críticas ao bloqueio de jornalistas no Twitter e à parceria com Israel para a dessalinização da água, assim como aos movimentos de política externa do futuro governo em relação a países da América Latina. Os perfis também fazem questionamentos sobre o assassinato de Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes e, a partir de base alinhada a perfis e contas do PT dentro do grupo, reiteram a defesa do ex-presidente Lula.

No grupo em rosa, os debates foram menos enfáticos em relação a pautas semelhantes, com maior destaque para o bloqueio a jornalistas, ironias quanto à investigação do Coaf e comentários sobre a ceia de Natal das famílias. Os perfis do grupo satirizam o “encontro” entre parentes separados pela polarização política e a defesa de valores cristãos e ligados a agendas religiosas por cidadãos que defendem iniciativas como a pena de morte, o porte de armas e a rejeição aos direitos humanos.

O debate no Twitter na semana

Quanto às agendas temáticas, segurança pública segue, às vésperas da troca de faixas na Presidência, como o item de principal relevância nas redes sociais. O alto volume de menções ao assunto se deve à profusão de notícias sobre crimes violentos, episódios de agressão e homicídios de ampla repercussão e, em particular, a João de Deus. Há ainda comentários sobre a intervenção federal no Rio de Janeiro e sobre a sensação de insegurança no país como um todo, além da discussão acerca da liberação do porte de armas.

Em corrupção, mantida a continuidade temática das últimas semanas, boa parte das menções se refere a Fabrício Queiroz ou ao ex-presidente Lula, embora a notícia de que o ex-governador Sérgio Cabral negocia acordo de delação premiada tenha obtido destaque recente. Em economia, as reformas tributária e da Previdência são as mais citadas, além de questões ligadas a estatais e ao equilíbrio de contas públicas. O perfil de Bolsonaro mobilizou com força discussões específicas no período, como a revisão de regulamentações e os aportes feitos pela Lei Rouanet.